terça-feira, 4 de agosto de 2015

Cineclube Sesi: "Amarcord" de Federico Fellini

Nesta quinta-feira, dia 6, o Cineclube Sesi exibe  "Amarcord" de Federico Fellini,  abrindo o ciclo A arte do som que contará ainda com "Assalto à 13° DP" de John Carpenter (dia 13), "Bom Trabalho" de Claire Denis (dia 20) e "O Conto da Princesa Kaguya" de Isao Takahata (dia 27). Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi apresenta: "Amarcord" de Federico Fellini


Através dos olhos de Titta (Bruno Zanin), um garoto impressionável, o diretor dá uma olhada na vida familiar, religião, educação e política dos anos 30, quando o fascismo era a ordem dominante. Entre os personagens estão o pai e a mãe de Titta, que estão constantemente batalhando para viver, além de um padre que escuta confissões só para dar asas à sua imaginação anti-convencional.

Serviço:
dia 06/08 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA
 

Realização: Sesi 
   
   (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)

domingo, 2 de agosto de 2015

Cineclube Sesi: A arte do som

Programação
06/08 - "Amarcord" de Federico Fellini
13/08 - "Assalto a 13° DP" de John Carpenter
20/08 - "Bom Trabalho" de Claire Denis
27/08 - "O Conto da Princesa Kaguya" de Isao Takahata


Serviço:
Toda quinta
às 19h30 
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA

Realização: Sesi 
Produção: Atalante

sexta-feira, 31 de julho de 2015

I VITELLONI / 1953


(Os Inúteis)

Toda a obra de Fellini é uma autobiografia. Fellini como “objecto” e “matéria” de filmes não se limita a uma rememoração de experiências e confissões. O autor expõe-se também nas suas rêveries, obsessões e nos caminhos não percorridos, no desejo de ser outro, e na confluência de outros destinos com o seu, onde projecta uma faceta grotesca. Mas esta biografia sonhada e sublimada, de que a psicanálise é um dos instrumentos de leitura, só se manifesta a partir de La Dolce Vitta e se afirma definitivamente com Otto e Mezzo. Até essa ruptura linguística e temática, a sua matéria é não o sonho mas a experiência pessoal, não sem que se detectem já os sinais do “outro” Fellini, pelo papel atribuído à função onírica já fundamental no final de I Vitelloni constrói-se de forma semelhante, na que permanece ainda hoje como uma das mais belas sequências do realizador: Moraldo (Franco Interlenghi) abandonando a terra natal no combóio, cujo movimento é montado paralelamente com uma série de travellings para trás sobre os seus companheiros adormecidos, um movimento que é tanto símbolo de ruptura com o passado da sua parte, como, no sentido inverso, projecção dos desejos não materializados de evasão dos companheiros. Ainda de forma “realista” Fellini lança as bases do seu cinema a partir dos anos 60. E o personagem desencantado de Moraldo forma com o Marcello de La Dolce Vitta e o Guido de Otto e Mezzo um corpo único onde Fellini se “retrata” a si próprio. Numa carta a Angelo Solmi, Fellini dá conta do que I Vitelloni tem de autobiográfico, com a sua terra natal de Rimini servindo de modelo para a cidadezinha de província onde os vitelloni passeiam a sua mediocridade e embalam sonhos que não materializarão (será preciso o reconhecimento internacional e vários óscares para Fellini, para que os seus conterrâneos lhe perdoem o facto de não ter feito o filme em Rimini). E se é Moraldo o personagem com mais traços autobiográficos, também os outros, como diz Fellini na referida carta, projectam algo de si, embora inspirados em amigos de infância. Para um dos personagens irá buscar o seu próprio irmão, Riccardo Fellini. Em I Vitelloni Fellini “imagina” o que poderia ser o futuro de todos eles.

Cinco homens, Fausto, Ricardo, Leopoldo, Alberto e Moraldo, formam esse grupo de vitelloni, gente desocupada, que arrasta uma apagada e triste existência entre o usufruto do imediato e projectos que nunca chegam a concretizar, vivendo à custa dos familiares, imaturos e fugindo às responsabilidades. Não deixa de ser interessante verificar que os personagens têm o nome dos actores que os interpretam, excepto o primeiro e o último, que são também aqueles a que o realizador dá mais atenção, Fausto como uma espécie de personagem central dos vários episódios do filme, Moraldo numa função de testemunha. Se na intriga ele é o mais apagado (à excepção das belíssimas sequências com o garoto ferroviário), está, porém, presente ao longo de todo o filme, vendo, observando, testemunhando a mediocridade do meio e daquela vida. A sua fuga não é um acto reflectido: é como a água que transborda de vaso. Atinge o limite do suportável e desaparece sem objectivo. O jovem ferroviário (única testemunha da sua partida) pergunta-lhe: “Onde vais?” e Moraldo responde: “Não sei. Vou-me embora” “Mas o que vais fazer?”, “Não sei. Preciso de partir. Vou-me simplesmente embora”. A que se segue um olhar constrangido sobre a cidade que a pouco e pouco vai desaparecendo com a montagem paralela atrás referida. Cada episódio são gotas de água que vão fazer extravasar o cálice de Moraldo, sendo o definitivo a tragi-comédia da busca da mulher de Fausto (irmã de Moraldo). É Fausto o mais triste destes tristes heróis, sem sentido de moral, procurando seduzir a mulher do patrão, tentando vender uma estátua roubada, numa antecipação dos pobres diabos sem moral de Il Bidone. Se há redenção para os personagens de Fellini, é Moraldo quem a representa neste filme. Mas apenas a esperança da partida, deixando o resto em suspenso. Se a sorte lhe sorrir poderá ser um jornalista (Marcello, em La Dolce Vitta) ou um realizador de cinema (Guido, em Otto e Mezzo). Fausto, o mais arrogante e ousado (O que mais sonha com a partida da cidade, procurando aliciar Moraldo. Mas tal gesto não era mais do que uma fuga às responsabilidades por ter engravidado Sandra), revelar-se-á o mais fraco. Alberto será o primeiro a afirmá-lo. Moraldo tem há muito consciência disso, mas recusa-se a admiti-lo, e só no final, com relutância, lhe lança o epíteto de cobarde à cara. Para Alberto ficará a mais patética das sequências: a do travesti, após a noite de carnaval, qual marioneta desarticulada e abandonada no meio da rua, verdadeira premonição de um futuro sem horizontes.

Em I Vitelloni já está todo o Fellini. O trabalho da memória obsessivamente retomado, os personagens procurando o caminho entre o desespero e a graça. E uma forma de mostrar que transcende os limites do “neo-realismo”, com as imagens rigorosamente trabalhadas (a disposição dos personagens na profundidade de campo nas sequências do cais, da praia e as suas deambulações nocturnas pelas ruas), uma fotografia que sublinha o recorte psicológico. 

Que I Vitelloni se tenha tornado uma das obras mais citadas de Fellini, e um verdadeiro filme-culto, não causa espanto. Não é apenas a memória de Fellini que nele se manifesta, mas a de toda uma geração. I Vitelloni representa para a que viveu esse início da década de 50 o mesmo que The Big Chill (Os Amigos de Alex), de Lawrence Kasdan, representa para a geração de 60.

Manuel Cintra Ferreira

(Folhas da Cinemateca Portuguesa)

Cine FAP: Christine, de John Carpenter

Nesta segunda-feira, dia 03, o Cine FAP apresenta "Christine, o carro assassino", dando prosseguimento à mostra Teen Movies, que em agosto contará com mais quatro filmes. Sempre com entrada franca!

 Cine FAP apresenta:
"Christine, o carro assassino" de John Carpenter



O estudante nerd Arnie Cunningham se apaixona por Christine, um antigo Plymouth Fury, e se torna obcecado em devolver ao automóvel destruído sua antiga glória. À medida que o carro se transforma, o mesmo acontece com Arnie, cuja recém-adquirida autoconfiança se transforma em arrogância por detrás do volante de sua beleza exótica. Leigh, a namorada de Arnie, e seu melhor amigo Dennis vão procurá-lo, e o que encontram é um Plymouth Fury sobrenatural e sem limites.

Serviço:
dia 03/08 (segunda)
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP e HATARI! (Grupo de Estudos de Cinema)
Apoio: Coletivo Atalante

quinta-feira, 30 de julho de 2015

NADA ALÉM DO CORPO


Sobre o cinema de Lucio Fulci

Todo aquele que não consegue fazer frente à vida enquanto está vivo precisa de uma das mãos para afastar parte do desespero que sente perante o seu destino - com pouco êxito - mas com a outra ele pode anotar o que observa entre as ruínas, porque é capaz de ver qualquer coisa de diferente (e muito mais) do que os outros vêem; apesar de tudo, mesmo morto durante a vida, ele é o verdadeiro sobrevivente.
Trecho de Diários de Franz Kafka 
Não é preciso ser um morto-vivo para sentir o vazio da existência. Nos filmes do italiano Lucio Fulci há essa mesma constatação niilista. Mas por se valer de meios “antinaturais” – histórias de zumbis, portais malignos, possessões e serial killers – para edificar sua poética, Fulci é menos óbvio e, sobretudo, menos "respeitável" que os demais. Geralmente associado ao cinema de gênero, de traço popular (da comédia no início da carreira, aos filmes de horror, passando pelos gialli e faroestes), ele é famoso pela maneira gráfica como filma eviscerações e toda sorte de mutilações. Porém, seu alcance é maior. Não apenas consolidou as bases criativas do que se convencionou chamar de cinema gore, como adicionou a esse subgênero rara inventividade e sofisticação. Pode parecer paradoxal que um cineasta capaz de rodar um homem sendo partido ao meio (Demonia) ou um jovem vomitando o próprio fígado (The City of the Living Dead) seja, em algum momento, sofisticado. No entanto, é. E, justamente, nas cenas mais extremas, tal o poder de fabulação de suas imagens.
Ainda mais relevante para sua poética niilista - e o que o torna um autor acima de tudo - é a sua utilização do corpo. Se para Pier Paolo Pasolini, em sua trilogia da vida, o corpo é o locus do prazer, vestígio possível do sagrado entre os homens, que, mais tarde, converte-se em objeto, fetiche mercantil, mercadoria do “prazer” alheio (notadamente em Saló), para Fulci não há nada além do corpo. Em oposição a Robert Bresson, por exemplo, para quem o corpo é travessia, indício do invisível, do SOBREnatural, meio pelo qual se manifesta a graça (na primeira metade de sua obra) ou o mal (na fase final); para o diretor de The Beyond, o corpo é o fim. Talvez por isso, a obsessão em filmar o corpo mutilado, vegetativo, sem vida, a ponto de, num último grau de paroxismo, mostrar um corpo sendo literalmente moído (The Sweet House of Horrors). Em comum a todas essas imagens a falta de transcendência. É como se Fulci perscrutasse se existe algo além do corpo, quem sabe a alma...
Não por acaso, uma imagem recorrente nos filmes do cineasta italiano é a de um olho – “a janela da alma” – sendo perfurado. Ele filma o movimento até o fim, seja um graveto ou uma furadeira perfurando o globo ocular, e não encontra nada além do orgânico. É interessante observar como mesmo a presença do mal, a evocação do diabo ou de outros fenômenos próprios dos filmes de terror sempre têm uma manifestação corpórea nos filmes de Fulci. Na sua obra não existem espíritos ou ectoplasmas, somente corpos - mesmo após a morte. É difícil imaginar algo mais pessimista.
Para além das imposições comerciais, os filmes de zumbis de Fulci são prodigiosos em reforçar sua visão niilista, ao mostrar sem rumo, debatendo-se como moscas contra a janela, esses corpos sem alma. E quando se chega ao fim da longa estrada em The Beyond, só há o vazio e corpos soterrados. Então, os dois protagonistas do filme, que escaparam às mutilações durante a trama, são encerrados em seus próprios corpos – e, novamente, são os olhos, que se acinzentam como barras de metal, a senha para a danação final. Não há alma, apenas uma prisão intransponível (o corpo) da qual, reforça Fulci, não é possível transcender. Metáfora da vida? Fulci, que morreu em março de 1996, já deve ter a resposta.

Adolfo Gomes
(Texto original: 
http://www.contracampo.com.br/97/pgfulciadolfo.htm)