quinta-feira, 17 de abril de 2014

OS DONOS DA NOITE


James Gray, We Own the Night, EUA, 2007

Assim como o recente Zodíaco, de David Fincher, Os Donos da Noite nos coloca diante de uma interrogação sobre o estilo, o ponto de vista, a forma, talvez sobre um lugar enigmático da mise en scène na Hollywood atual. Ambos parecem filmes disfuncionais se comparados ao grosso do que é feito hoje em termos de ação, thriller policial e gêneros similares. Esse ar disfuncional, contudo, rapidamente se revela um traçado preciso, uma forma deessencialismo. Os Donos da Noite tem um bom roteiro, uma linha narrativa coerente, um drama forte, mas o grande investimento da obra está na abordagem de um olhar sobre o conjunto material e imaterial do filme, e também sobre seus detalhes materiais e imateriais. Está na mise en scène. O aguardado novo filme de James Grayé uma usina de detalhes, mas não um campo de batalha para puras questões formais. O enredo do filme se desenvolve inteiramente, e muitíssimo bem, num terreno formal ultra pensado e concebido, quase teórico, porém sem abdicar de ser emotivo e visceral. 

Em Zodíaco e Os Donos da Noite, uma certa linha da imagem foi ultrapassada ou mantida à distância. Estamos muito abaixo ou muito acima de uma operação de esteta. Ou na fronteira, difícil estabelecer. Percebemos que o essencial do filme se acha na construção, mas esta se esquiva, não fica em realce. É um tipo ambíguo de invisibilidade da direção, onde a mise en scène é tudo e simultaneamente nada. Perto de qualquer outro filme deFincher (que se notabilizou pelos excessos), Zodíaco chega a parecer um cine-jornal. E, no entanto, não se pode dizer que o diretor abriu mão do estilo, muito pelo contrário. Reconhecemos que há um filtro estético e que ele está longe de ser insignificante, mas não sabemos ao certo em que lugar ele nos instala. Frontalidade, secura? Ou maneirismo ainda maior que trabalha por vias alternativas? Os Donos da Noite lança questões semelhantes: James Gray está avançado demais no código, esgarçando o cinema de gênero como só uma série B saberia fazer, ou recuando estrategicamente, concentrando-se nos interstícios, focando as nuances, o drama de fundo do cinema policial e de máfia. Dá para se ater a essa segunda hipótese, das nuances e dos interstícios, por boa parte do filme... Mas o que dizer então quando explodem as cenas de confronto em tours de forcemagnificamente orquestrados? 

O cinema americano sempre teve essa reserva de penumbra para os procedimentos estéticos que não se colam nem a modismos nem à reprodução fiel de um sistema formal constituído. Os Donos da Noite traz a consciência de pertencer a uma história dos estilos e de integrar um imaginário que atravessa décadas. É um filme policial estilo anos 70 que se passa nos anos 80 e mostra a guerra entre a polícia e a máfia como nos anos 30. E com estrutura dramática shakespeariana. Partindo disso, vários curtos-circuitos são possíveis. Gray não adere ao vintage, e sua diegese se constrói sem usar os signos de maneiracool e sem recorrer às referências fáceis que geralmente são mobilizadas para estabelecer o clima da época em que a história se passa. Os Donos da Noite é ambientado noBrooklyn em 1988. Bobby (Joaquin Phoenix) é o gerente da mega boate El Caribe, cujos donos são mafiosos russos. Devido ao sucesso do estabelecimento, Bobby é convidado a administrar uma nova filial, talvez emManhattan. Ele é o futuro dono da noite nova-iorquina, como fala entusiasmado para seu amigo Jumbo. Mas seu universo entra em colapso quando a mesma máfia russa dona do El Caribe declara guerra à polícia da qual fazem parte seu pai e seu irmão, interpretados por Robert Duvall e Mark Wahlberg. Como em The Yards, Gray demonstra uma grande sabedoria na escolha do elenco, reunindo atores novos e antigos. 

O início de Os Donos da Noite já é extraordinário. Primeiro uma sucessão de fotos documentais em preto-e-branco, mostrando batidas policiais, locais com drogas, cenas de crimes etc. Depois o filme vai para o El Caribe. Lá, Bobbyencontra Amada (Eva Mendes) se masturbando num sofá, comHeart of Glass” da Blondie tocando ao fundo. Eles estão prestes a transar, mas Jumbo bate na porta e interrompe o namoro. Bobby precisa ir no andar térreo resolver uma confusão provocada por duas mulheres dançando semi-nuas em cima do balcão do bar e alguns bêbados brigando. Gray faz um contraste entre essa situação caótica e a confraternização bem comportada dos policiais, no galpão ao lado de uma igreja (cuja arquitetura remete ao El Caribe, num espelhamento em certa medida até clichê entre o templo religioso e a boate moderna). A conversão de Bobby a policial já está indicada nessa passagem de espaços na seqüência inicial do filme. Trata-se menos de uma escolha moral do que de uma transmissão familiar inelutável – o assustador desse processo é que ele envolve a perda de uma "liberdade" que o irmão no fundo invejava em Bobby. Se por um lado há uma influência setentista forte, por outro não estamos no terreno da corrupção policial como em Serpico (SidneyLumet) ou Operação França (William Friedkin). O filme se concentra menos na corporação do que na família. Alguém pode lembrar, e com razão, da voga de ficções familiares desta década, de Sopranos ao Cronenberg recente, mas o registro aqui é totalmente outro.

A ação tem um valor todo próprio em Os Donos da Noite. Para um filme que não é o que se pode chamar de “agitado”, e que na verdade deve provocar o tédio de muita gente, é no mínimo curioso constatar que ele possui: 1) a melhor cena de perseguição de carro dos últimos anos (podem falar da – realmente delirante – seqüência final de À Prova de Morte do Tarantino à vontade, porque garanto que Gray foi além), 2) uma cena de emboscada extremamente tensa e imersiva e 3) um clímax arrebatador, daqueles de ficar impregnado na memória, pedindo uma revisão do filme. Na perseguição, quase todos os planos são feitos de dentro do carro de Bobby. Chove torrencialmente, os mafiosos cercam seu carro, mandam tiros, o pai dele é morto logo à frente, o carro pega uma contramão e quase bate em dezenas de outros: acontece de tudo e a seqüência é filmada entre a confusão completa (realmente estamos tão atordoados com a perseguição quanto o personagem) e a suprema mestria na construção dos pontos de vista e no uso do som. O ponto de vista, aliás, é uma questão estética crucial no filme. Quando Bobby vai ao encontro dos mafiosos com uma escuta escondida no isqueiro, Gray vai progressivamente mergulhando na construção subjetiva, a cena se pautando cada vez mais nos sons e nas visões deBobby. No encontro anterior, com o capanga de Vadim(vilão dos vilões), sabíamos de antemão que Bobby se entregaria por um detalhe: ele acende seus cigarros com fósforo, mas a escuta está num isqueiro. Uma vez descoberto por Vadim, Bobby solta a senha mágica, já combinada anteriormente, e a polícia chega. No meio do tiroteio, uma bala zune no ouvido de Bobby e o mundo fica abafado e irreal. Uma troca de tiros monumental, uma verdadeira guerra, em questão de segundos se torna “leve como uma pena”. No clímax, depois que Bobby entra à caça de Vadim no meio do mato, ao qual foi atiçado fogo, ocorre uma nova cena de total imersão, reforçada pela fumaça que toma conta da imagem e, novamente, pelo peculiar uso do som. A cena de Bobby retornando do meio da fumaça tem uma dimensão espiritual que não estamos acostumados a ver no cinema de gênero contemporâneo.

Momentos de êxtase, portanto, não faltam. Acontece que James Gray rejeita operações confortáveis na sua mise enscène – nem o conforto do bom artesão lhe interessa. Suas exigências, assim, tornam-se ainda maiores; seus deleites visuais, mais recônditos. À exceção de um ou outro slow motion (há um de Eva Mendes fumando que é sensacional), Gray rejeita também as facilidades do icônico, instalando-se num universo de enquadramentos regidos por dinâmicas mais complexas, como a claustrofobia de alguns planos. A suprema arte de Gray se deixa ver nos corpos dos atores, nos ambientes, nos gestos de aproximação ou distanciamento entre os personagens (como em toda a impressionante relação dePhoenix com Wahlberg). E nas sombras inquietantes, vez ou outra vampirescas, desse filme noturno e fascinante pelo qual James Gray nos fez aguardar durante não menos que seis anos. Tudo bem: deve ser o tempo de amadurecimento do seu talento e da sua exigência.

Luiz Carlos Oliveira Jr.

(Texto original: http://www.contracampo.com.br/89/critdonosdanoite.htm)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Mini-curso: A arte da mise-en-scène

Dando prosseguimento ao que foi iniciado com as Oficinas de Formação de 2013 (cineclube, cinema na escola e crítica), o Sesi oferecerá em 2014 mini-cursos mensais sobre diversos capítulos da teoria e da história do cinema. 
Ministrados pelo cineclubista Miguel Haoni, do Coletivo Atalante, os mini-cursos terão carga horária de 8 horas, inscrições gratuitas e vagas limitadas.

A técnica da encenação , apesar de quase invisível, foi e continua sendo um dos canais mais expressivos entre o autor e o espectador. A disposição dos objetos e corpos no espaço da cena, seu movimento, suas relações entre si e com a câmera, constitui em diversos períodos de sua trajetória, a essência cinematográfica. O Mini-curso de História do Cinema de abril pretende abordar esta dimensão da arte, através da revisitação do pensamento de alguns de seus principais teóricos.

Unidades:
1 - O estilo
2 - O belo e o verdadeiro
3 - Mise en scène moderna 
4 - O essencial e o supérfluo

Referências:
1 - BORDWELL, David. Figuras Traçadas na Luz.  Campinas, SP: Papirus, 2009
2 - OLIVEIRA JR, Luiz Carlos. O cinema de fluxo e a mise en scène. São Paulo, 2010
3 - "A Eternidade e Um Dia". Theo Angelopoulos. 1998. GRE. cor. 132 min.
4 - MOURLET, Michel. "Sobre uma arte ignorada". Cahiers du Cinema n. 98, agosto de 1959

Serviço: 
dias 26 e 27 de abril (sábado e domingo)
das 14 às 18 horas
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)   

Inscrições gratuitas pelo telefone: 3271-9560
VAGAS LIMITADAS

Realização: Sesi 
  
     (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)

terça-feira, 15 de abril de 2014

Cineclube Sesi: "Os Donos da Noite", de James Gray

Nesta quinta-feira, dia 17, o Cineclube Sesi apresenta "Os Donos da Noite", dando prosseguimento ao ciclo James Gray que contará ainda com "Amantes", no dia 24.
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi apresenta:  "Os Donos da Noite", de James Gray

1988. Bobby Green (Joaquin Phoenix) é o popular gerente da boate El Caribe, cujo dono é um gângster russo situado no Brooklyn. Bobby tem diversos policiais em sua família, entre eles seu irmão Joseph (Mark Wahlberg) e o pai Burt (Robert Duvall), mas tenta esconder esta ligação no trabalho. Com o tráfico de drogas aumentando em Nova York, Bobby tenta manter uma distância saudável do dono da boate em que trabalha, que passa a ser investigado por Joseph.

Serviço:
dia 17/04 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA
 

Realização: Sesi 
   
   (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

CAMINHO SEM VOLTA


James Gray, The Yards, EUA, 2000

Caminho Sem Volta começa e termina exatamente da mesma maneira. Leo Handler, o personagem de Mark Wahlberg, está sentado no vagão de um trem, o dia já caindo, a luz alaranjada. Quando primeiro o vemos, ele está voltando para casa depois de um ano e meio preso por roubo de carros. Suas roupas, seu porte, sua barba mal-feita, a olhada de canto para um policial que está no mesmo vagão, tudo nos diz que aquele é um ex-condenado ainda em processo de readaptação ao "mundo aqui de fora". No fim, depois de passar por uma nova provação, que é a própria materialidade da trama (um jogo de corrupção política e banditismo amador que acabam fazendo dele o elo mais fraco de um grande esquema criminoso), Leo está de volta ao mesmo trem, só que dessa vez de barba feita, cabelo alinhando, casaco e gravata. O olhar desconfiado, no entanto, é o mesmo. Tudo em Caminho Sem Volta nos indicaria que a trajetória deste sujeito era do tipo expiação-e-redenção, com uma transformação espiritual obrigatória ali no meio, mas o que James Gray nos entrega é, ao contrário, a conformação, um quase determinismo.

Pouco antes dessa última imagem de Leo, veremos uma pequena seqüência no tribunal onde estão sendo julgados todos aqueles que gerenciavam o esquema corrupto. É uma seqüência imposta à montagem final por Harvey Weinstein, produtor do filme, e que não consta da versão do diretor (essa, infelizmente, nunca lançada no Brasil). Ainda que coloque pingos em is que certamente não deveriam ser tão esclarecidos assim, é a seqüência em que, pela primeira vez, Leo assume a fabulação de sua própria história, e passa de objeto a sujeito de uma trama. E ali diz que, com seu testemunho, pode estar quebrando um código de silêncio que é próprio do "ambiente da rua" do qual ele é um produto.

Se há algo que conecte os três filmes de James Gray é exatamente esta idéia da predestinação. Seus personagens estão sempre metidos numa cadeia de acontecimentos e sensações estabelecidas à sua revelia, passível de combate e resistência, mas que eventualmente se provará forte demais para ser vencida. Em Fuga para Odessa, a existência do irmão caçula de um assassino frio a serviço da máfia russa pode até sinalizar para a não-repetição dos erros antigos, depositadas as esperanças de um futuro melhor nesse menino que, tendo convivido a vida inteira com o mal, não é mau. Em Os Donos da Noite, a conversão de um bon-vivant com os dois pés fincados na marginalidade em premiado policial e defensor da lei talvez finalmente cumprisse uma passagem de bastão entre irmãos, em chave oposta à de Fuga de Odessa: dessa vez a transmissão da moral fraterna agiria positivamente sobre a vida dos envolvidos. Mas no filme de 1994, o destino provaria que todos estavam embriagados demais pelo mal-estar e sordidez do pequeno bairro de imigrantes para conseguirem empreender qualquer fuga dali. E em 2007, um último olhar do bandido reformado para a platéia que agora o saúda como policial modelo, um olhar que busca a figura perdida da namorada latina dos velhos tempos, nos provará que não houvera reforma nenhuma, mas apenas a adequação a um caminho imposto historicamente e contra o qual sua natureza íntima não poderia fazer nada a não ser obedecer. No meio disso, Caminho Sem Volta e Leo Handler, supostamente quebrando códigos, subvertendo escritas.

Não é o caso, evidentemente. Leo fora preso pela primeira vez por um roubo que não praticara sozinho, mas que aquele código da rua o fizera assumir integralmente. Uma vez mais, quando tomar parte do negócio sujo comandado pelo tio e levado a cabo por seu melhor amigo, será responsabilizado por um crime que não cometeu. Mas antes que chegue ao tribunal, e à quebra do código pela delação, Leo tentará de todas as formas fazer com que a engrenagem do submundo possa absolvê-lo. O que este protagonista tenta fazer não é livrar-se de uma acusação expondo ao mundo as entranhas de um ambiente corrupto. Marginal por natureza, consciente de que sempre estará metido em confusão, não importa o quão limpo tente ser, Leo só espera desse ambiente condicionante que ele funcione da maneira certa. Há uma ética própria da rua, e se ela diz que não se deve dedurar parceiros de crime, também diz que um parceiro envolvido em problemas com o mundo real, da lei e da ordem, deve receber toda a ajuda possível, e é isso que Leo não obtém. Sua delação não é a destruição de um sistema, mas a tentativa de despertá-lo para o resgate de seus princípios mais básicos, princípios que foram se perdendo na esteira da ganância e da sede de poder.

Estes sistemas, estes ambientes, estes organismos sociais, cuja natureza é sempre sangüínea (estamos falando de famílias, antes de qualquer outra coisa), são tão fortes que trabalham por sua auto-alimentação. Reuben, o irmão caçula de Fuga para Odessa, nunca deveria ter pego em armas, mas uma vez diante de uma, escapar é impossível. Do mesmo medo, era impensável que o Bobby Green deOs Donos da Noite pudesse colaborar com a polícia, tanto mais fazer parte dela, mas uma vez que o chamado é disparado, não há o que fazer a não ser segui-lo. É assim também com Leo Handler, que só precisava ficar longe das confusões após a saída da prisão, mas uma vez diante de uma, não consegue fazer nada a não ser participar dela. Que espaço sobraria para um cineasta que se depara com universos tão fechados em si senão tentar extirpar daí este caráter cruel de eterno confronto com a “realidade”, com o pragmatismo de uma situação incontornável? Senão tirar desse universo seu aspecto totalizador, e então trabalhá-lo em fragmentos, em pequenas ilhas de espaço-tempo que, não devendo nada a uma ordem geral (“o destino”), podem finalmente existir enquanto territórios da liberdade, do não-programado, do não-escrito?

Muda-se de roupa (da jaqueta de ex-presidiário ao terno e gravata em Caminho Sem Volta), acumulam-se as fardas (o blazer de dono de boate mais o uniforme policial em Os Donos da Noite), e não é o cômputo das transformações que importa, mas sim a experiência única de cada um desses momentos que compõem o drama do destino. James Gray, velho cineasta jovem, lida com a seqüência, antes que com o plano – ainda que destes ele saiba realizar uns mais bonitos que os outros. Seu mundo é da ordem da cena, a unidade básica de seu cinema é o pequeno acontecimento dramático. É assim que um diálogo curto entre o filho desgarrado e a mãe doente à beira da cama ganha ares de epopéia, que a reunião de uma família em volta da mesa de jantar se transforma num jogo de tensão e expectativa, num embate de forças mudas. Liberadas da obrigação de conseqüência, uma vez que seu futuro já está traçado, a cena pode então existir em toda sua complexidade, reverberar vozes dissonantes, expressar sentimentos difusos e contraditórios. Se o espírito é imutável, a cena pode fazer dos personagens que nela habitam figuras de pura ambigüidade – corresponde ao destino o trabalho de aparar arestas e justificar o passado, a cena não tem qualquer responsabilidade com a verdade, nem qualquer obrigação senão com ela própria.

É por isso que convivem, no mesmo filme, cenas como a que a tia de Leo (Faye Dunaway) sugere ao marido que é hora de matar o sobrinho antes que ele cause problemas à família, num envenenamento mútuo que só quer convencer a todos ali que a decisão de eliminar o rapaz não é moralmente discutível, pelo menos não quando é um consenso formado em nome da manutenção do ambiente; e no lado oposto, a cena em que esta mesma tia, depois que a tragédia (sempre violenta, drástica, shakesperiana) já se abateu sobre a trama, esta mesma tia estica a mão em direção ao sobrinho, e o abraça honesta e sinceramente, trazendo-o de volta ao seio da família, selando uma ligação inabalável, mas que, até pouco tempo atrás, julgávamos completamente destruída. O trabalho de Gray com os atores é primoroso, nesse sentido. James Caan certamente não está no papel de líder dessa máfia umbilical à toa, e é todo o eco de O Poderoso Chefão e tantas outras narrativas familiares que nos fazem observar com franca indecisão este seu personagem inconsistente, duvidoso, agressivalegre. Basta também um travelling em direção ao rosto de Joaquin Phoenix no banco de um carro, chorando copiosamente, para que saibamos que nenhuma certeza sobre sua trajetória nos fará cientes do que se passa em seu interior.

E Caminho Sem Volta é repleto desses abismos interiores. Cada momento nos deixa ainda mais imersos nesse universo paralelo, até quase o limite da abstração. Numa simples seqüência de emboscada (como quando Mark Wahlberg precisa apagar o policial que testemunhará contra ele, e que acaba de sair do coma num hospital), vai-se do exercício de gênero à mais direta referência às vanguardas, abandona-se a fabricação do thriller pela experiência compartilhada da tensão, onde participar do ponto-de-vista do personagem não é apenas uma maneira de perceber a ação por olhares distintos, mas de fato temer, suar e fugir como ele, tamanha a atmosfera de opressão. Ainda não se percebia nestas seqüências de ação de Caminho Sem Volta a dimensão metafísica que Gray empregaria na perseguição de carros sob chuva e no milharal em chamas de Os Donos da Noite, exatamente porque aqui as relações são todas tácteis, e não experiências do olhar, como em seu último filme. O termo “submundo” nunca pode ser tão bem empregado como na trajetória de Leo Handler, e não só porque seu drama envolve a companhia de metrô. É que sua narrativa opera por claustrofobia, por sufocamento, por mergulho irrestrito no domínio da cena. Assim, tão instalados ali, é com quase surpresa que Gray nos oferecerá, lá pelo meio do filme, uma imagem de televisão em que se exibe uma reportagem sobre as diversas passeatas e protestos que aconteceram em Nova York desde que o crime contra os funcionários do metrô acontecera. Ora, nem sequer supúnhamos que existisse um mundo para fora dos becos escuros e apartamentos pequenos em que Leo se esconde, para fora dos escritórios e mesas de jantar onde a família armava seus esquemas, para fora daqueles tormentos específicos, de personagens específicos. Esse mundo existe, e é exatamente por nos ter feito experimentar tão vivamente o puro artifício, a ficção em seu mais alto grau, a criação de universos tão reais quanto se pode creditar à um veículo de invenção como o cinema, que Caminho Sem Volta sinaliza destinos muito mais amplos à James Gray que aqueles a que submete seus protagonistas.

Rodrigo de Oliveira

(Texto original: http://www.contracampo.com.br/90/dvdcaminhosemvolta.htm)

Cineclube da Cinemateca: "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha



Neste sábado, dia 12, o Cineclube da Cinemateca apresenta "Deus e o Diabo na Terra do Sol", dando início ao ciclo "O western segundo Glauber Rocha", que contará ainda com "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro", no dia 26.
Sempre com entrada franca!

Cineclube da Cinemateca apresenta: "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha

O 'western' pode bem ser o gênero americano por excelência (como bem pontuou André Bazin) mas sua mitologia, seus arquétipos humanos e sua paisagem contêm as formas primais de um universalismo que por décadas não apenas garantiu o sucesso mundial dos filmes do gênero como também serviu de inspiração e modelo para diversos cineastas. Assim, pretendemos lançar um olhar mais atento para a maneira como, no Brasil, Glauber Rocha retomou os motivos basilares do 'western' e, ao fazê-lo, promoveu não uma simples importação do gênero e de suas convenções para nossas plagas tropicais - à semelhança do que já fora feito em filmes O cangaceiro (1953), de Lima Barreto, ou A morte comanda o cangaço (1960), de Carlos Coimbra. Pelo contrário, com Glauber, o 'western' à brasileira assume uma dimensão fundacional, crítica e mitológica comparável às grandes conquistas de mestres como John Ford ou Howard Hawks no gênero. É a contraditória figura de Antônio das Mortes, o matador de cangaceiros, que conecta de ponta a ponta o díptico formado por Deus e o Diabo na terra do sol e O dragão da maldade contra o santo guerreiro. No primeiro filme, é pela intervenção de Antônio que os protagonistas, Manuel e Rosa, passarão da revolta metafísica da religião à revolta anárquica do cangaço e, desta, para um terceiro momento, suspenso e incerto, mas pleno da esperança que se traduz na visão sublime do sertão que se torna mar. Em ambos os filmes, Antônio das Mortes - à semelhança de sua contraparte fordiana Ethan Edwards, de Rastros de ódio - é um herói trágico: seus esforços se voltam sempre para um mundo no qual ele mesmo é um pária, nunca poderá habitar a sociedade que seus atos ajudam a construir, nem poderá lutar a grande guerra que (ele crê) sua ação precipitará; resta-lhe vagar, "jurando em sete igrejas, sem santo padroeiro", como diz o cantador que narra sua sina.


Serviço:
Dia 12/04
15h
Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(041) 3321-3252
ENTRADA FRANCA

Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Cine Fap: "Cap Nord", de Sandrine Rinaldi


Uma noite de festa ao som do Northern Soul, no ritmo de amores musicais. Uma obra que celebra a paixão de estar junto, dentro do recito soul, da poesia que flui entre o movimento e as palavras, da comédia de situações em um espaço despretensioso cheio das mais variadas tensões: amor, inveja, desejo, ciúmes, medo. Um filme que surpreende por nunca ostentar mais do que aparenta, por não dissimular qualquer possível limitação de seu baixo orçamento. Sua qualidade reside em aparentar ter custado o que custou, dos pequenos milagres que são extraídos dessa abertura. Sandrine Rinaldi se insere na linha rohmeriana dos que filmam com prazer, como que há de disponível, da maneira que for possível. Trata-se de um belo filme amador na dupla acepção do termo: tanto por seu criativo amadorismo, quanto pela qualidade do que ama ao filmar.

Serviço:
dia 14/04 (segunda)
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral) 
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP e HATARI! (Grupo de Estudos de Cinema)
Apoio: Coletivo Atalante

terça-feira, 8 de abril de 2014

Cineclube Sesi: "Caminho Sem Volta", de James Gray

Nesta quinta-feira, dia 10, o Cineclube Sesi apresenta "Caminho Sem Volta", dando prosseguimento ao ciclo James Gray que contará ainda com "Os Donos da Noite", no dia 17; e  "Amantes", no dia 24.
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi apresenta:  
"Caminho Sem Volta", de James Gray

Leo Handler (Mark Wahlberg) um rapaz durão com duas características: uma folha de crimes nas suas costas e a certeza de que pode recomeçar sua vida afastado dos negócios ilegais. Ao deixar a prisão após cumprir pena por um crime que não havia cometido, Leo consegue um emprego na empresa de trem do seu tio (James Caan). Porém, logo ele descobre as conexões da empresa em que trabalha com diversos crimes ocorridos e começa a se envolver em diversos problemas, decorrentes desta descoberta.

Serviço:
dia 10/04 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA
 

Realização: Sesi 
   
   (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)