segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Os westerns de uma nota só de Howard Hawks


* Artigo publicado originalmente no  catálogo da Mostra Howard Hawks Integral. 

Em uma pequena passagem do artigo “Western: Introdução ao gênero e ao herói”, Glauber Rocha se detém sobre a principal personagem do gênero, o cowboy: “O chapéu é de largas abas, o revólver de balas intermináveis é sacado com a velocidade do raio, o cavalo é preto ou branco, fiel até o último perigo, os punhos são fortes e ágeis, a estrela no peito o símbolo do bem” (ROCHA, 2006, p.114). Nesse trecho, Glauber poderia muito bem estar se referindo a um western de Howard Hawks, uma vez que as obras do diretor pertencentes ao gênero cinematográfico tinham características classicistas – presentes na aura de benevolência de seus cowboys –, aliadas a um modernismo único na construção ambígua das personagens e na representação das mesmas.

Sobre Hawks, o então crítico de cinema Jacques Rivette, em sua seminal análise sobre a política do autor, O gênio de Howard Hawks, publicada na Cahiers du Cinéma 23, de maio de 1953, disse que:

Hawks é o diretor da inteligência e da precisão, mas é também um maço de forças negras e fascinações estranhas; ele é um espírito teutônico, atraído por surtos de furor controlado que geram uma cadeia infinita de conseqüências. A existência de sua continuidade é a manifestação do Destino (RIVETTE, 1953).

Além das características descritas por Rivette, poder-se-ia dizer também que Hawks era um homem viril e de poucas palavras. Tanto é que a única vez em que ele disse a Barbara, uma de suas filhas, que a amava, foi em seu leito de morte. Tal característica, que diz respeito à dificuldade dos homens se expressarem diante das mulheres, se refletiu em suas personagens. Durante a cena final de Onde começa o inferno (1959), por exemplo, a jogadora de pôquer Feathers, apaixonada pelo xerife John T. Chance – com T de tormento, segundo ela –, se veste com uma roupa sensual para fazer uma apresentação de dança no saloon. Chance diz que se ela o fizer, será presa, no que ela desiste, alegando que finalmente ele declarou o seu amor. O xerife apenas murmura que não disse que a amava e sim que a prenderia e Feathers responde que é a mesma coisa.

Essa cena demonstra que Hawks foi o cineasta que provavelmente melhor soube refletir as intempéries da relação homem versus mulher em toda a vasta história do cinema, com uma misoginia característica na forma de retratar seus personagens. A complexidade por trás de uma declaração de amor por parte do homem, ato aparentemente tão simples, é algo que se tornou quase uma obsessão para Hawks e o fato dele conseguir mostrar o quanto a fêmea entende tal coisa, evidencia que o diretor soube como poucos compreender a mulher moderna.

E, por razões óbvias, nos westerns dirigidos por Hawks, essa peculiaridade se tornou ainda mais presente, desde Rio Vermelho (1948), passando por O rio da aventura (1952) e, mais precisamente, em sua famigerada trilogia estrelada pelo cowboy astro dos filmes de John Ford: John Wayne – que também participou do filme de 1948 –, formada por Onde começa o infernoEl Dorado (1966) e Rio Lobo (1970), além do ator haver protagonizado a aventura Hatari! (1962).

Curiosamente, a incursão de Hawks no universo do western se deu em dois trabalhos não creditados: Viva Villa! (1934) – biografia romanceada do revolucionário mexicano Pancho Villa, produzida por David O. Selznick, e que contou com vários diretores demitidos durante as filmagens – e O proscrito (1943), produção do milionário excêntrico da aviação, Howard Hughes.

Esse último foi um western erótico que levou o gênero à evolução e causou polêmica, sendo proibido pela censura. A partir dele e de outras obras do mesmo período, o crítico de cinema francês André Bazin, ao lado do teórico Jean-Louis Rieupeyrout, criou a expressão metawesternpara se referir ao “western que teria vergonha de ser apenas ele próprio e procuraria justificar sua existência por um interesse suplementar: de ordem estética, sociológica, moral, psicológica, política, erótica” (BAZIN, 1991, p.210).

Hawks iniciou as filmagens de O proscrito e as abandonou devido a divergências com Hughes, que acabou dirigindo a obra, porém algumas das marcas desse inevitavelmente ficaram presentes, principalmente na cena final, onde o machismo impera quando os dois protagonistas percebem que no Velho Oeste um cavalo era mais importante do que uma mulher bela, no caso a sensual Rio vivida por Jane Russell em seu primeiro trabalho.

A partir dos anos 1940, o western passou por uma revolução, principalmente devido às chagas deixadas pela Segunda Guerra Mundial na sociedade americana. Hawks, um mestre da narrativa nos mais diversos estilos cinematográficos se infiltrou logo no gênero americano por excelência, preservando o aspecto clássico e machista do mesmo, isso em um período onde até o conservador John Ford já buscava mudar seus preceitos e se rendia à evolução e ao progresso, principalmente devido aos traumas do pós-guerra que deram origem ao chamado western psicológico.

Era como se Hawks estivesse dizendo que o Velho Oeste era um território dos homens viris e profissionais e um espaço para a ação e para a simplicidade e não para a reflexão. De qualquer maneira, o diretor não viria a abandonar seu estilo moderno para a época, tão presente em obras anteriores, moderno não no sentido de trazer novos paradigmas e sim na forma de conduzir sua narrativa, bem como construir suas personagens, complexas e ambíguas por natureza.

Dentro dessa linha tênue entre o classicismo e a modernidade se construíram os westerns de Hawks. Todavia, o cineasta veio a dirigir apenas cinco filmes sobre o Velho Oeste e, no entanto, é considerado um dos mestres do gênero, ao lado de Andre De Toth, Andrew V. McLaglen, Anthony Mann, Budd Boetticher, Clint Eastwood, Delmer Daves, Henry Hathaway, John Ford, John Sturges, Raoul Walsh, Sam Peckinpah, Sergio Leone, William A. Wellman, dentre outros, que certamente dirigiram mais westerns do que Hawks. O que torna essas obras de Hawks algumas das melhores da história do cinema é a marca de sua simplicidade.

Vejamos Rio Vermelho, o primeiro western oficial de Hawks. Aparentemente é um filme que conserva toda a mitologia que moldou o gênero. Porém, quando analisado a fundo, ele se desfaz em uma representação e celebração da vida.

Ora, quem imaginaria John Wayne, até então intérprete de homens benevolentes, vivendo um tirano teimoso – lembrando a personagem de Henry Fonda em Sangue de herói (1948), de John Ford –, capaz de sujeitar seus comandados a grandes dificuldades para que consiga vender seu gado e, assim, sair da miséria que o tomou após a devastação do Texas com o fim da Guerra Civil? John Wayne era considerado até então um ator popular, um herói americano e um imitador dapersona de John Ford, seu grande mestre, do qual copiou o modo característico e trôpego de andar, o jeito de se comportar e os gestos. Apenas um diretor como Hawks seria capaz de colocar Wayne se defrontando com um dos grandes galãs da época (Montgomery Clift) sem, no entanto, soar farsesco.

E mais, há a relação pai e filho desenvolvida entre ambas as personagens, rompida devido à tirania de Wayne, que logo acaba percebendo o quanto estava errado, porém isso depois de uma briga com Clift no meio da lama. Além disso, há o domínio da narrativa, uma vez que impera a não ação com poucos acontecimentos de fato, com o clímax do desenlace entre Wayne e Clift se dando apenas na meia hora final do filme. Por isso a representação da vida, uma vez que nela grandes ações não ocorrem o tempo inteiro, e são concentradas em momentos específicos.

Assim, Hawks acompanha o dia-a-dia desses homens condutores de gado com uma câmera à altura do olhar do ser humano (sua principal marca) e à espreita de algum acontecimento, em tom quase realista – porém sem a pureza de Anthony Mann e Budd Boetticher, por exemplo –, quase como se estivesse seguindo aquelas personagens.

Por fim, há uma das marcas mais fortes de Hawks: a obsessão por adereços que completam suas personagens e trazem algum significado para elas, no caso específico de Wayne, uma pulseira de sua amada morta por índios logo no início do filme. E o que dizer do “duelo” final entre Clift e Wayne, onde a forma clássica de suspensão do tempo através do andar das personagens e dos olhares de uma em frente à outra, realizada em plano americano que valoriza as armas do mocinho e do vilão – característica comum nos westerns anteriores – dá lugar à modernidade do estranho andar de Wayne em direção a Clift e à briga entre ambos em meio à lama, com socos no lugar de tiros, ocorrendo em poucos segundos.

Não há significados ocultos ali e em nenhuma outra cena dos filmes de Hawks, há apenas o registro de cada ação, nesse caso específico cada passo de Wayne, um andar que mais parece uma marcha sem charme de um velho homem viril e durão e reflete em sua mise-en-scène o universo dos machões, ou seja, não há máscaras, as personagens são o que são. Jacques Rivette confirma tal fato ao dizer que Hawks observava as ações

com meticulosidade e paixão. É as ações que ele filma, meditando sobre o poder autônomo da aparência. Não nos preocupamos com os pensamentos de John Wayne enquanto ele anda em direção a Montgomery Clift ao final de Rio Vermelho [...]: nossa atenção é direcionada unicamente para a precisão de cada passo – o exato ritmo do andar, de cada golpe – e o gradual colapso do corpo exaurido (RIVETTE, 1953).

Outro ponto interessante na obra de Hawks diz respeito ao fato do diretor haver feito filmes muito parecidos entre si, alguns quase reinvenções de si mesmos, outros reencenações de temas vistos em realizações anteriores. Esse é também o caso de seus westernsO rio da aventura, por exemplo, é uma espécie de refilmagem de Rio Vermelho, uma vez que a temática é idêntica, com personagens e situações parecidas entre si. O cenário continua sendo o Velho Oeste, a manada de bois que deve ser conduzida de um local a outro é substituída por uma embarcação e a relação pai e filho dá lugar à fraternidade entre dois amigos. Todavia, o tom de homenagem aos pioneiros da colonização americana ainda está presente, assim como o tema da masculinidade e da maturidade, que chega para um dos protagonistas quando ele se une em matrimônio com uma índia.

Além disso, a comparação entre Rio Vermelho ao lado de O rio da aventura com A grande jornada (1930), de Raoul Walsh, e Caravana de bravos (1950), de John Ford, torna-se inevitável, uma vez que ambos os filmes de Hawks são obras que tratam dos colonizadores pioneiros, daqueles que construíram a América moderna através de seu sacrifício, sendo os dois filmes realizados em tom elegíaco e de homenagem, porém sem a heroicidade e mitologia do filme de Walsh ou do de Ford.

Hawks retornaria ao universo do western apenas sete anos após O rio da aventura, exatamente com um de seus mais memoráveis filmes: Onde começa o inferno, espécie de resposta a Matar ou morrer (1952), de Fred Zinnemann, maior representante dos chamados westerns psicológicos e analogia sobre a “Caça às Bruxas” empreendida pelo Senador Joseph McCarthy contra aqueles que compactuavam com idéias comunistas.

Apresentando uma história análoga à do filme de Zinnemann – xerife é ameaçado por bandidos, só que dessa vez por fora-da-lei que deseja libertar seu irmão da cadeia –, Hawks dá um tratamento humorístico à sua narrativa, como se dissesse a Zinnemann que o western não é um lugar para se discutir elementos psicológicos e que é um absurdo um xerife do Velho Oeste ser deixado à sua própria sorte. Dessa forma, ao contrário do protagonista Will Kane de Matar ou morrer, John T. Chance (o xerife de Onde começa o inferno) conta com a ajuda de seus dois assistentes, o alcóolatra Dude, vivido por Dean Martin, e Stumpy, um velho manco e banguela, interpretado por Walter Brennan, além de Colorado Ryan, um jovem cowboy de gatilho rápido, personagem representado por Ricky Nelson.
Hawks trabalha com a falta de uma história propriamente dita em boa parte do filme, uma vez que a narrativa evolui em função das personagens, o que já havia sido experimentado em Rio VermelhoO rio da aventura. O próprio diretor, em entrevista ao cineasta e crítico de cinema Peter Bogdanovich fala sobre isso:

“Decidi que o público estava ficando cansado de tramas; (...) Rio Bravo¹ Hatari! quase não têm trama – há mais a caracterização e o divertimento de contar uma história. (...) Quando se faz um filme com enredo, há certa tendência de o público pensar: ‘Ih, já vi isso antes’. (...) Mas quando não se diz qual é a trama, há uma chance de despertar o interesse. Isso também conduz as personagens que motivam a história: acontece porque a personagem acredita que a situação acontece, não porque esteja escrito num roteiro.”

Se tal estratégia confere um ritmo por vezes lamurioso a Onde começa o inferno é porque essa era a intenção. Suspender a narrativa em pequenas doses é em si um ato de mergulhar o espectador na própria ação dos mocinhos que irão se defrontar com seus inimigos. Hawks celebra, assim, o profissionalismo do xerife e dos seus comandados em defender a lei e a ordem, deixando claro que homens com tamanha responsabilidade nunca haveriam de ter dúvidas quanto a cumprir seu dever. Os homens sabem que devem proteger a cidade e é isso que fazem, entendendo que contarão com a solidariedade local, pois Hawks não hesita em compreender o fato da população americana guardar como uma de suas características o aspecto de solidariedade.

O tema da amizade viril novamente invade a narrativa, dessa vez com a personagem da jogadora de pôquer, Feathers, interpretada pela bela Angie Dickinson, como uma espécie de representação da mulher moderna, que tem orgulho de sua feminilidade, mas ao mesmo tempo, convive de igual para igual com os homens, inclusive entendendo a dificuldade que eles têm de expressar seus sentimentos. Para Hawks, as mulheres atrapalham a ordem natural do mundo dos homens, edificada em cima do trabalho, ou no caso específico de Chance, um trabalho que leva consigo o perigo, uma vez que ele está sob fogo cerrado a todo o momento e tem de recorrer à violência mesmo contra a sua vontade. Atrapalham porque geralmente as mulheres não compreendem a profissão dos homens.

Chance tem um exemplo próximo a si que o faz temer um relacionamento: Dude, seu assistente beberrão, que se tornou um alcóolatra devido ao fato de ter sido abandonado por sua amada, que da mesma forma não entendia sua profissão e a brutalidade em que ele estava inserido. Porém, Feathers, como dito anteriormente, é uma mulher moderna, que não abandona o pôquer para se enlaçar com Chance, além de não exigir dele um estilo de vida diferente, longe da violência.

As características expostas até aqui se encontram também nos dois últimos westerns de Hawks: El Dorado e Rio Lobo, reencenações dos mesmos temas de Onde começa o inferno. No primeiro, há igualmente uma personagem tomada pela bebida alcóolica devido a um romance malsucedido, no caso o xerife J. P. Harrah, interpretado por Robert Mitchum, auxiliado pelo pistoleiro Cole Thornton, vivido por John Wayne, para combater um grupo de bandidos.

Apesar das personagens serem muito parecidas com as do western anterior de Hawks – inclusive um jovem que tem habilidade com facas, Mississippi, vivido por James Caan, e Bull, um velho caçador de índios, ambos lembrando, respectivamente, o Colorado Ryan e o Stumpy de Onde começa o inferno –, o diretor acrescenta um novo tema: a velhice que toma Harrah e Thornton. Dessa forma, Hawks recorre a objetos que simbolicamente representam esse fato: uma bala de revólver alojada perto da coluna de Thornton e a garrafa de uísque de Harrah, ambas porque prejudicam os personagens, imobilizando-os para a ação.

Rio Lobo segue praticamente a mesma trajetória, com John Wayne como um coronel da União em meio à Guerra Civil tendo de se juntar a um oficial sulista para se vingar de um traidor que lhe fez perder um carregamento de ouro. Apenas a ordem é invertida, pois enquanto em Onde começa o inferno, Dude era sequestrado pelos bandidos para ser feito de refém e trocado pelo preso, em Rio Lobo, Wayne e seu parceiro usam um refém para substituí-lo por um inocente encarcerado.

Hawks se celebrizou exatamente por ter contado praticamente a mesma história a vida inteira, inclusive em seus westerns, ou como diria um personagem de Rio Lobo, personificação do próprio diretor, que é interpelado por alguém por sempre tocar um mesmo instrumento: “Eu treino essa nota porque é a única que eu sei tocar.” Essa celebração da simplicidade da vida dos filmes de Hawks, onde as coisas são o que são sem nenhum significado oculto, faz pensar que, se por infelicidade ou qualquer outro motivo, em algum dia o cinema deixar de ser o que é ou passar a ser esquecido por todos, alguém perguntar o que foi essa arte, basta pegar uma velha e empoeirada cópia de Onde começa o inferno ou qualquer outro western ou filme de outro gênero de Hawks e exibi-lo. Isso poupará qualquer descrição tola e tudo estará perfeitamente entendido.

Referências

ARAÚJO, Inácio; TOSI, Juliano (org.). Cinema de Boca em Boca: Escritos sobre Cinema. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010.

BAZIN, André. Evolução do Western. In: O Cinema: Ensaios. Trad.: Eloisa de Araújo Ribeiro. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.

BOGDANOVICH, Peter. Afinal, Quem faz os Filmes. Trad.: Henrique W. Leão. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

MATTOS, A. C. Gomes de. Publique-se a Lenda: A História do Western. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

RIVETTE, Jacques. O Gênio de Howard Hawks. In: Cahiers du Cinéma. Maio de1953.

ROCHA, Glauber. Western: Introdução ao Gênero e ao Herói. In: O Século do Cinema. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

VUGMAN, Fernando Simão. Western. In: MASCARELLO, Fernando (org.). História do Cinema Mundial. Campinas: Papirus, 2006.

¹ Título original de Onde começa o inferno.

Jefferson Assunção
(retirado de 
http://ateladoaventurar.blogspot.com.br/2013/06/os-westerns-de-uma-nota-so-de-howard_3.html)

domingo, 31 de agosto de 2014

LEFFest 2012: filmes (d)e Daney (fragmento)


(...)

Mas sendo esta uma colecção de filmes sob a memória e a palavra de Daney será incompreensível que não se invoque/evoque a mesma. Sobre Cimino disse: “A ambição de Cimino nunca foi pequena. Dar aos outros e a si próprio o sentimento de tudo começar do zero. Como se o cinema nada tivesse ainda mostrado e como se não se tivesse visto ainda nada. Verdadeira ambição de cineasta“. Nem mais. Um cineasta como Michael Cimino é um que toma o cinema como objecto de refundação (a palavra está na moda) de um pais, de uma nacionalidade. Esta compreensão pessimista da pátria americana valeu-lhe a glória e a desgraça; Heaven’s Gate (As Portas do Céu, 1980) foi a desgraça, custou perto de 45 milhões de dólares e conseguiu apenas 1 em bilheteira. Foi o filme que levou a United Artists à falência e transformou em besta o bestial realizador. Filme truncado pelos estúdios (para tentar minimizar os prejuízos), vê-se agora em versão restaurada e estendida.

Porque o tempo tudo cura, vemos agora a bisarma em estado puro; eu, por nunca ter visto a versão truncada, encaro a obra com olhos igualmente virgens. E mais que os revisionismos do oeste ou a prespectiva negativista, o que me espanta (mais que tudo) neste filme é a sua capacidade de passar do geral ao singular e de fazer o trajecto em sentido contrário, balançando entre o épico histórico e o épico romântico. Cimino percebeu que só se pode filmar o horror (e ele filma-o sem pejo) se podermos primeiro lavar a vista com candura. Para isso veja-se a cena da valsa logo a abrir o filme – alegria a brotar do ecrã a rodos – que faz um racord simbólico com a batalha final, também ela em constante movimento circular – o horror a rodos. Todo o filme vive nessa corda bamba: a cidade e o comboio com os seus barulhos e fumaradas e confusão (e centenas de figurantes) a par do campo e das montanhas na sua calma bucólica; cada um destes territórios é infectado pelo outro, até que no final já não há terra que valha a James, só o mar o pode ainda acolher. Cinco palas e muitas palmas (há filmes assim, saimos da sala e estranhamos as coisas cá fora, lamentamos que o projector tenha parado e que só nos reste voltar para casa e viver a nossa vida).
(...)
By 
(Texto na integra: http://apaladewalsh.com/2012/11/20/leffest-2012-filmes-de-daney-2/)

Cineclube Sesi: Fritz Lang Contra a América

Programação
04/09 - "O homem que quis matar Hitler"
11/09 - "Quando descerem as trevas"
18/09 - "Só a mulher peca"
25/09 - "Desejo humano"

Serviço:
Toda quinta
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA

Realização: Sesi 
Produção: Atalante

sábado, 30 de agosto de 2014

Cine FAP: "O Rio da Aventura", de Howard Hawks

Na próxima segunda-feira, dia 1°, o Cine FAP apresenta o filme "O Rio da Aventura", de Howard Hawks , dando prosseguimento à mostra Faroeste. Ainda em setembro teremos: "Homens Indomáveis", de Allan Dwan (15/09); "Vera Cruz", de Robert Aldrich (22/09); e "Dominados pelo Terror", de William Wellman (29/09)

Sempre com entrada franca!

Cine FAP apresenta: "O Rio da Aventura", de Howard Hawks

Estados Unidos, 1832. Os amigos negociantes Jim Deakins (Kirk Douglas) e Boone Caudill (Dewey Martin) partem para o Oeste junto com a expedição de um capitão francês pelo rio Missouri. Ameaçados por indígenas hostis, eles logo percebem que subestimaram o povo local. Enfrentando inúmeras dificuldades e levando uma garota como refém, os homens terão de lutar muito para conseguir retornar com vida.

Serviço:
dia 01/09 (segunda)
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP e HATARI! (Grupo de Estudos de Cinema)
Apoio: Coletivo Atalante

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Cineclube Sesi da Casa: "O Portal do Paraíso", de Michael Cimino

Neste domingo, dia 31, excepcionalmente às 15h00, O Cineclube Sesi da Casa apresenta "O Portal do Paraíso", de Michael Cimino (com comentários de Cauby Monteiro) encerrando o ciclo Nova Hollywood. Em setembro o cineclube investiga A ficção nos anos 70. 
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi da Casa apresenta: 
"O Portal do Paraíso", de Michael Cimino

Nos Estados Unidos do final do século 19, aconteceu uma das páginas mais negras da história americana, um crime bárbaro chamado "Massacre de Johnson County", quando centenas de imigrantes eslavos, a maioria russos, foram dizimados pelos poderosos barões de gado de Wyoming. Este filme recria o episódio através da ótica de James Averill, um homem amargurado que disputa o amor de uma prostituta com um violento pistoleiro a mando dos fazendeiros.

Serviço:
dia 31/08 (domingo)
excepcionalmente às 15h00
no Sesi Heitor Stockler de França 
(Avenida Marechal Floriano Peixoto, 458, Centro)
ENTRADA FRANCA
 

Realização: Sesi 
   
   (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)
 
 
Comentador convidado: Cauby Monteiro

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

POLÍCIA


Police, 1985
Logo em sua sequência inicial, Polícia nos faz lembrar de seriados televisivos recentes, em especial o aclamadoThe Wire, produzido pelo canal HBO entre 2002 e 2008. O estilo seco e direto impresso nesta obra por Maurice Pialat não encontra muitos paralelos no gênero em seu tempo, mesmo entre exemplares de polars (policiais) franceses surgidos a partir da década de 70, que por costume são ainda mais agressivos e politicamente incorretos do que os modelos made in USA mais famosos e imitados (Perseguidor Implacável, Operação França). Fazendo uso de uma tática que se tornaria padrão na televisão duas décadas mais tarde, Pialat investe com afinco nos personagens, tratando-os como seres de carne e osso, ao invés de perder tempo e repetir todo o procedimento padrão neste tipo de história – policiais de um lado e bandidos do outro, brigas com superiores, o conflito da moral e da ética…
Partindo de uma ideia original de Catherine Breillat (do período em que ela ficou quase dez anos sem dirigir um único filme), Polícia trabalha com um realismo brutal, onde policiais e bandidos apresentam inúmeras facetas, mesmo quando fazem aquilo que se espera deles. O Inspetor Mangin (Gérard Depardieu) pode perfeitamente prender e fichar um suspeito por pura intuição ou desejo, apesar da dúvida que acomete a vítima do crime, sem qualquer condenação posterior para si. Também é capaz de assediar sexualmente ou tripudiar de uma agente em treinamento, sua possível superior em pouco tempo, sem problema algum. Mais tarde, evita entrar em conflito com uma figura que agrediu a mesma agente na rua, talvez porque não seja inteligente desafiar este homem misterioso.
Se os policiais ultrapassam a linha imaginária que separa a atitude policial do uso abusivo do poder, os bandidos por possuírem ligação familiar ou raízes em comum, demonstram um padrão mais elevado de comportamento a despeito de suas atividades ilícitas. Vão preferir o diálogo à violência, menos quando um membro menor do grupo age como informante para a polícia a fim de abrandar sua pena. A sentença para este soldado desonrado só pode ser a morte. Quem transita entre os dois grupos é o advogado Lambert (Richard Anconina), amigo pessoal de Mangin e que tambpem mantém laços de confiança com quadrilha de traficantes de drogas, pois afinal, ele é um advogado honesto que faz o que sua profissão manda e com isso aumenta a proximidade dos dois mundos.
Quase nenhum dos criminosos traz um nome que o associe com suas origens árabes, com exceção de Noria (Sophie Marceau, em um de seus primeiros papéis), uma gaulesa de aparência caucasiana. Envolvida com os bandidos, ela se tornará o objeto de desejo de Mangin, um homem de atitudes ásperas quando travestido de oficial da lei, mas que esconde por trás disso um perfil de fragilidade e carência afetiva, demonstrado quando passa uma noite com uma prostituta que também lhe serve como informante. A câmera de Pialat evita mostrar o ato sexual, preferindo se afastar, captando apenas a insuspeita timidez ou falta de jeito de Mangin. Ele trata Noria com rispidez dentro da delegacia, chega até a agredir a moça ao interrogá-la, mas quando longe deste ambiente, passa a cortejá-la, deixando aflorar seus sentimentos para com esta mulher. Noria será o oposto de Mangin. De aparência frágil de início, ela apresentará depois como a femme fatale do filme, com uma personalidade manipuladora e gélida, contrastando com o vulcão de emoções que é o inspetor.
Trabalhando pela primeira vez com um típico cinema de gênero, Pialat foge das convenções, escolhendo focar o olhar no relacionamento dos personagens. A própria investigação em relação aos traficantes é deixada em segundo plano, não há cenas de perseguição de carro e um único tiro é disparado durante toda a duração do longa. Se hoje o público está acostumado com séries como The Wire ou The Shield, imagina-se o estranhamento que Polícia provocou na metade da década de 1980. Exemplares americanos iconoclatas vieram a seguir, comoViver e Morrer em Los Angeles e Homicídio, mas nada tão radical. Mesmo sem a certeza de que William Friedkin ou David Mamet tiveram a oportunidade de conferir Polícia em seu lançamento nos cinemas, podemos dizer que o gênero policial se divide em antes e depois da obra-prima de Pialat.
Leandro Caraça
(Texto original:
 http://www.revistainterludio.com.br/?p=3453)

Cine FAP: programação de setembro

Cine Fap apresenta: Mostra Faroeste
Programação de setembro:
01/09 - "O Rio da Aventura", de Howard Hawks
15/09 - "Homens Indomáveis", de Allan Dwan
22/09 - "Vera Cruz", de Robert Aldrich
29/09 - "Dominados pelo Terror", de William Wellman

Serviço:
Sessões às  segundas
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral) 
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP
Produção: HATARI! - Grupo de Estudos de Cinema
Apoio: Coletivo Atalante