sábado, 25 de abril de 2015

4:44 - Last Day on Earth


(Abel Ferrara, 2011, EUA/França/Suiça)
Comenta-se muito a “domesticação” de David Cronenberg e esquece-se a de Abel Ferrara: 4:44 Last Day on Earth (4:44 Último Dia na Terra, 2011), o novo filme do nova-iorquino que começou no gore (e roçou a pornografia), aproxima-se do apocalipse com uma placidez quase budista (ou como daquele pregador budista, um valente oxímoro, imagem e som constantes no iPad da jovem Skye).
Longe vão os tempos da violência gráfica e sacra [mais do que Martin Scorsese, e principalmente quando trabalhava com o argumentista Nicholas St. John, Ferrara foi o católico desesperado do cinema americano, que via na violência a (possível?) expiação dos pecados das suas personagens] de Ms. 45 (Vingança de uma Mulher, 1981), com a sua freira assassina, de Bad Lieutenant (Polícia Sem Lei, 1992), com Harvey Keitel em pelota no meio de uma igreja, de The Addiction (Os Viciosos, 1995), com os vampiros como símbolos demónicos do vício, só para ir buscar alguns (e ficam outros tantos, importantíssimos, fora desta enumeração). No entanto, se não está tão à mostra, não é difícil descobrir a perversidade de Ferrara: na mesma placidez que parece contradizer o resto da sua obra (não tanto a recente). É que filmar o fim do mundo com esta serenidade só pode ser perverso.

Durante grande parte do filme, Cisco (Willem Dafoe, um daqueles actores de que se pode dizer que é incapaz de ser mau) e Skye, o casal que protagoniza 4:44, estão encerrados (voluntariamente) no seu apartamento, ligados ao mundo através da televisão (em que se vêem as únicas manifestações de terror perante o futuro da humanidade e, em contra-ponto, aquele pivot de tele-jornal de uma calma exasperante) e dos inúmeros gadgets da Apple (alguém mais cínico poderia escrever que o filme não passa de um anúncio, bastante estranho é certo, da marca), com que (in)comunicam com os entes queridos antes da morte certa (monólogos paralelos mais do que de diálogos, guerrilhas verbais mais do que apaziguamento). Das poucas vezes que se vê o “lá fora” — quando Cisco vai ao terraço assistir a um suicídio, quando ele procura os amigos (ou melhor, a droga que largou: valerá a pena continuar “limpo” quando o mundo vai acabar?; valerá a pena não pecar quando o mundo está a acabar?) —, não se dá conta de grande comoção: apesar dos avisos, as ruas parecem tão pacíficas como numa noite comum (o que talvez seja um dos problemas).

Fujo à explicação ambientalista (redutora) para o que vai acontecer naquela noite às 4 e 44 da madrugada, que dá a Al Gore uma aura de Nostradamus dos nossos tempos: preferia que não houvesse qualquer explicação. Contudo, nem preciso de fugir muito, a principal razão, a que se sente pelo menos, para este castigo dos deuses (de Deus, já que é um filme de Ferrara) é a apatia dos homens, que, nem neste momento, se importam muito com o que lhes vai acontecer. Chega-se à conclusão de que não é a tranquilidade que Abel Ferrara filma, mas, sim, a indiferença. Cisco é o único que grita em desespero, que se debate, que se enfurece (mesmo o suicida cai sem um ai); os outros preferem uma distracção: os amigos, um copo, a cocaína; a namorada, a meditação e a pintura que ficará para uma posteridade que não há-de vir, gesto que tenta negar a condição finita das coisas. O sexo é o último (verdadeiro) refúgio para eles, quando os corpos tomam posse das mentes e se esquecem, por segundos, do seu destino (é o momento mais sensual do filme, dos momentos mais sensuais numa filmografia que não tem falta deles, em todas as acepções da palavra). O amor, que não se dissocia do corpo (nunca para Ferrara), é a redenção que resta, num mundo em que nem já a violência tem lugar.

No fim (e poucos fins são tão finais), depois daquele verde bíblico [a lembrar uma das pragas de The Ten Commandments (Os Dez Mandamentos, 1956) de Cecil B. DeMille)], desmentindo a escuridão das luzes que se apagam em Nova Iorque, uma luz branquíssima ilumina tudo, incluindo os corpos deitados por cima da serpente do pecado original. They were angels already.

João Lameira
(Texto publicado em http://www.apaladewalsh.com)

O Bairro - Temporalidade e Fluxo de Consciência


À semelhança dos 'club books', O Bairro consiste em encontros para diálogos a respeito de obras literárias. Um texto é escolhido, os participantes o adquirem, o leem e comparecem aos nossos encontros para exporem suas opiniões sobre a obra em questão. Neste mês de maio, daremos início ao Terceiro Ciclo do Bairro, denominado "Temporalidade e Fluxo de Consciência", que prevê a leitura das seguintes obras na seguinte ordem: No Caminho de Swann (Proust), Campo Geral, Buriti, Grande Sertão: Veredas (Rosa), Os Mortos, Retrato do Artista Quando Jovem (Joyce), Mrs. Dalloway (Woolf), Enquanto Agonizo (Faulkner), Perto do Coração Selvagem (Lispector) e A Montanha Mágica (Mann). 

Mediação: Murilo Coelho e Convidados.

Programação de Maio, Junho e Julho: Primeiro Volume de "Em Busca do Tempo Perdido" (No Caminho de Swann), de Marcel Proust. 

Teremos como Leitores Convidados: Tarik Alexandre e Caetano Pires.

Edição de Referência: Edição revista da editora Globo (a de capa azul), com tradução de Mário Quintana.

Datas:

Maio - Dias: 06/05 (ler até a página 102) e 20/05 (ler até a página 204).
Junho - Dias: 03/06 (ler até a página 306) e 17/06 (ler até a página 408).
Julho - Dia: 01/07 (ler até a página 512).

Os encontros ocorrem às quartas à noite, da 19 às 22 horas, no Palacete Wolf - Praça Garibaldi, 7. Em frente ao Cavalo Babão.

Inscrições, dúvidas e informações: mucoelho@fcc.curitiba.pr.gov.br

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Poiesis - Lírica Latina

O “Coletivo Atalante” o convida a participar do "Poiesis - Caminhadas Literárias" de 2015, onde abordaremos a Poesia. 

Palestra do dia 25/04:  Lírica Latina: Horácio, Propércio e Safo – Palestrante: Prof. Dr. Guilherme Gontijo. 

A descrição do evento assim como a sua programação completa está abaixo:

O Poiesis é um “Evento de Extensão” da UFPR que consiste em “Ciclos de Palestras”, ministradas por professores dessa mesma instituição, e aberta a todos os públicos (acadêmico e não acadêmico). Idealizado e organizado por membros do Coletivo Atalante, o Poiesis conta com a coordenação do professor de literatura brasileira Benito Rodriguez. Nesse ano, nosso tema vai ser a Poesia. Gênero literário supostamente marginalizado em nossa sociedade dos fins imediatos e objetivos, a poesia, não obstante, continua presente tanto nas universidades quanto nas redes sociais e nas ruas. São muitos também os Saraus Literários que ocorrem Brasil afora. Igualmente, ainda são muitos os jovens, adultos e idosos que escrevem seus poemas despretensiosamente (cujo objetivo destes escritos é, muitas vezes, dormitarem nas gavetas pessoais de seus escritores para serem, quando muito, compartilhados somente com os amigos mais próximos). O fato é que a poesia não está morta e nunca vai estar! Ou ao menos enquanto for possível haver infância na linguagem e no olhar, estes textos, que exploram ao máximo o potencial de condensação que a comunicação verbal pode alcançar, jamais desaparecerão. Linguagem associada aos mistérios do coração, da alma, do pensamento e do corpo, assim como linguagem apontada como origem da própria língua e do próprio pensamento, aurora do ser enquanto verbo, a poesia esteve sempre presente na história da humanidade: tecendo, laboriosamente, um jeito único de encarar e sentir o mundo e a vida; arquitetando, persistentemente, um discurso sempre visionário e intempestivo que se aloca nas trincheiras contrárias ao poderio das ideologias dominantes que empobrecem e encarceram a vida da língua.

Endereço: Prédio Dom Pedro I, Reitoria da UFPR – Rua General Carneiro, 460 – Anfiteatro do 11o andar.

Horário: 14 às 18 horas.

Certificado de 56 horas mediante frequência mínima de 70%.

Obs.: Todas as palestras ocorrerão aos sábados, das 14 às 18 horas, no Anfiteatro 1100 da Reitoria, Prédio Dom Pedro I.

Programação:

14/03/2015 – Charles Baudelaire – Palestrante: Profa. Dra. Sandra Stroparo.

28/03/2015 – João Cabral de Melo Neto – Palestrante: Prof. Dr. Waltencir Oliveira.

11/04/2015 – Walt Whitman – Palestrante: Profa. Dra. Luci Collin .

25/04/2015 – Lírica Latina: Horácio, Propércio e Safo – Palestrante: Prof. Dr. Guilherme Gontijo.

09/05/2015 – Rainer Maria Rilke – Palestrante: Prof. Dr. Mauricio Mendonça Cardozo.

23/05/2015 – Arthur Rimbaud – Palestrante: Prof. Ms. João Arthur Grahl.

13/06/2015 – Lake Poets: Coleridge e Wordsworth – Palestrante: Profa. Dra. Luci Collin.

15/08/2015 – Carlos Drummond de Andrade – Palestrante: Prof. Dr. Waltencir Oliveira.

29/08/2015 – Lírica Trovadoresca – Palestrante: Prof. Dr. Guilherme Gontijo.

12/09/2015 – Stéphane Mallarmé – Palestrante: Profa. Dra. - Sandra Stroparo.

26/09/2015 – T. S. Eliot – Palestrante: Profa. Dra. Luci Collin.

17/10/2015 – Wislawa Szymborska – Palestrante: Prof. Ms. Piotr Kilanowski.

07/11/2015 – Manuel Bandeira – Palestrante: Prof. Dr. Waltencir Oliveira.

21/11/2015 – Fernando Pessoa – Palestrante: Profa. Dra. Patricia Cardoso.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Shock Corridor (1963) de Samuel Fuller


cinema de Fuller é isto: in your face, cru no tratamento das personagens e pouco preocupado com a susceptibilidade do espectador. "Shock Corridor" (1963) começa sem grandes contextualizações sobre quem é o protagonista ou como foi este levado a pensar pôr em risco a sua sanidade mental por causa de um prémio prestigiante... Falamos de um jornalista que não conhecemos de lado nenhum, mas que Fuller nos apresenta no momento mais decisivo da sua carreira tal como da sua vida: infiltrar-se, sim ou não, num hospício fazendo-se passar por louco para saber quem foi o autor material do homicídio de um dos pacientes, de nome Sloan.

A determinação do protagonista em ir para à frente com plano tão insensato leva a melhor: de súbito, "Shock Corridor" transforma-se numa espécie de reportagem filmada sobre a viagem que Johnny Barrett faz pelo corredor (sem fim...) onde param algumas das mentes mais desequilibradas da América. E uma delas bem que podia ser vista como a metáfora perfeita para o temperamento crítico de Fuller: o negro racista, supremacista, segregacionista, que sonha a cores (!). "America for americans", grita ele em plano contra-picado, instantes antes de colocar na cabeça um capuz do Ku Klux Klan. Onde foi Sam Fuller buscar os balls para filmar esta cena em 1963? A ironia sulfurosa com que tratava os temas mais incandescentes da sociedade perturbou muita gente e provavelmente impediu que Fuller fosse considerado em vida justamente como um dos maiores cineastas norte-americanos.

O negro nazi - ou a forma como a cor interrompe violentamente o preto-e-branco - simboliza de algum modo a absoluta rejeição - era quase uma alergia... - à crítica unidimensional e maniqueísta (estilo preto no branco) que Hollywood fazia da realidade norte-americana. Ao mesmo tempo, os espaços de cor em "Shock Corridor" são mais opressivos que o preto-e-branco do asilo de loucos, que, por sua vez, se vai tornando lentamente não numa prisão mas num lugar de libertação para a catatonia (o verdadeiro "eu"?) de que Barrett desconhecia padecer.

Afinal, quem está louco aqui: os que passam os dias a apodrecer naquele corredor, sem fazer nada, ou os que lá fora estão prontos a abdicar da sua integridade (moral e física) por causa de um Pulitzer? O público de 1963 terá ficado chocado com o pessimismo impiedoso de Fuller e a forma como este filmou a passagem de um homem (pretensamente) são para um estado de total apatia (pretensamente insana).

O público de hoje não se sentirá melhor: a construção dramática de "Shock Corridor", a truculência intemporal da sua mensagem, a montagem alucinante de som e imagem, tal como a forma animal e crua como Fuller pega na câmara (exemplo da cena da luta entre Barrett e Wilkes) fazem com que este filme se mantenha mais fresco hoje do que a maioria das sátiras jornalísticas que o sucederam. Nem mais: corajoso e brutal, ontem como hoje.

Luís Mendonça
(Retirado de http://cinedrio.blogspot.com.br/2008/12/shock-corridor-1963-de-samuel-fuller.html)

Cineclube da Cinemateca: “4:44 – O Fim do Mundo” de Abel Ferrara

Neste sábado, dia 25, excepcionalmente às 14h, o Cineclube da Cinemateca exibe "4:44 – O Fim do Mundo" encerrando o ciclo Abel Ferrara. Em maio o cineasta estudado será Pedro Costa. Sempre com entrada franca!

Cineclube da Cinemateca apresenta:
“4:44 – O Fim do Mundo” de Abel Ferrara

  Cisco e Skye (Willem Dafoe e Shanyn Leigh) são um apaixonado casal nova-iorquino, com vários projetos pela frente. Hoje vivem o penúltimo dia das suas vidas, pois às 4h44 da próxima madrugada todo o planeta Terra vai colapsar. O que eles – e os outros sete bilhões de seres humanos – estão à espera durante as próximas horas é a extinção total da vida no planeta. Com o peso desta informação e conscientes de que nada se pode fazer para evitar, terão de viver o pouco tempo que lhes resta e encontrar uma maneira de lidar com o significado de tudo isso…

Serviço:
25 de abril (sábado)
Excepcionalmente às 14h
Na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

terça-feira, 21 de abril de 2015

Cineclube Sesi: "Paixões que Alucinam" de Samuel Fuller

Nesta quinta-feira, dia 23, o Cineclube Sesi exibe "Paixões que Alucinam" dando sequência ao ciclo Samuel Fuller, que contará ainda com "Cão Branco" (30/04).
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi apresenta:  "Paixões que Alucinam" de Samuel Fuller
 
 
O presunçoso e respeitado jornalista Johnny Barrett (Peter Breck) compromete-se a resolver um assassinato cometido num hospício. Para tanto, ele se interna como louco na própria instituição, mesmo sob protestos da namorada, a stripper Cathy (Constance Towers). A princípio, o jornalista sente prazer em simular sua loucura, mas, aos poucos, perde sua lucidez em contatos com os outros internos, principalmente com os que testemunharam o assassinato.

Serviço:
dia 23/04 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)

domingo, 19 de abril de 2015

O Estranho Caso de Angélica


(2010, Manoel de Oliveira)

Em seu belo texto sobre Manoel de Oliveira, “Uma nova aventura lusitana”, Inácio Araújo afirma, referindo-se às culturas do passado que retornam e se presentificam ao longo de toda a filmografia do diretor, que em seus filmes “o tempo não existe, não o tempo cronológico (…) o tempo se concentra, tende à inexistência ou mesmo a um certo tipo de insignificância”. O Estranho caso de Angélica não é exceção. E o que volta do passado aqui é certo imaginário ou sensibilidade desenvolvidos à época do Romantismo. Como em tantos outros filmes de Oliveira, parece que estamos, em Angélica, em pleno século XIX (uma espécie de interesse constante do diretor), embora seja um século XIX com automóveis modernos e uma máquina fotográfica perfeitamente a cores – o tempo cronológico não importa, afinal.
Ora, não seria Isaac, o fotógrafo e leitor de filosofia recluso em seu quarto, uma espécie ou variante de Werther? Se lembrarmos bem, este apaixonado suicida só deixava de lado o mergulho em suas leituras e o quarto da estalagem onde estava hospedado para olhar a natureza e desenhar suas singularidades (até conhecer Lotte, claro). Eram desenhos rápidos, à mão, que tentavam captar o instante do sol batendo na grama, segurar a marcha atroz do tempo, etc… fotografias, enfim. A comparação é importante, porque é justamente este personagem, Isaac, que poderá – ou estará apto ou predisposto – a enxergar como viva uma mulher que acabou de falecer. Como se sabe, a grande revolução do Romantismo contra as hierarquias da beleza clássica foi estabelecer que “tudo fala”: uma mera pedra, uma árvore, uma pequena casa vulgar, um defunto, tudo faz parte da opacidade misteriosa e imanente das coisas do mundo e tudo pode ser elevado a objeto da arte, tudo esbanja significados inimagináveis, todos os objetos podem ser portas para uma transcendência sublime. O que estas coisas nos escondem? Que verdade essencial há em seu mistério? A condição melancólica do romântico era olhar o mundo a partir dessa dúvida permanente. E é o que acontece com Issac, que lança olhares tristes para o lado de fora da janela (como nas pinturas de Friedrich) e que, como ele mesmo afirma, se interessa pelas coisas que estão prestes a desaparecer, como um grupo remanescente de trabalhadores rurais que logo serão substituídos por máquinas e que ele fotografa.
Oliveira precisa desse personagem – o retorno a esta “vertente romântica” se justifica porque o cineasta português faz parte, junto com tantos outros diretores que estão no topo do debate cinéfilo contemporâneo, de uma busca justamente pela transcendência que as coisas opacas e misteriosas do mundo podem dar a vislumbrar, através da imagem. Ora, essa é a “verdade” (que alguns chamam de “real”), fugaz como um raio, que tanto persegue os personagens (de diferentes épocas) de Non, ou a vã glória de mandar, que tanto inquieta Leonor Silveira (que, sempre ótima, interpreta a mãe de Angélica neste último Oliveira) em Espelho mágico; é ela que paira no trágico passeio pelas “civilizações” de Um filme falado, é ela que permeia os passos de Michel Picolli (e seu caminhar na escada no último e devastador plano do filme) em Je rentre la maison, etc, etc. É essa busca utópica e “sublime” do cinema – portanto em certo sentido modernista – de Oliveira que faz com que aqueles que tanto comemoraram a vitória de Apichatpong em Cannes repitam que ele, com 102 anos, é mais jovem e interessante que tantos outros cineastas por aí.
Tal busca, em Angélica, é empreendida através do entrelaçamento de dois caminhos, ou duas camadas que o filme traz: há em primeiro lugar a “historinha” que o roteiro desenvolve – como sempre em Oliveira de maneira distanciada, paródica, cínica e humorada, através das interpretações graciosamente afetadas dos atores, do pastiche com a “ingenuidade” do primeiro cinema, etc – ; e há, em segundo lugar, quando a imagem apresenta a materialidade das coisas em sua plena singularidade opaca e ininteligível para nós. É aí que esse filme sobre fotografia cria um certo “efeito-fotografia” na imagem cinematográfica (em movimento): o espectador deve aí enfrentar todo o mistério do passar irrefreável do tempo (ou, como diria Inácio, sua “não existência”), daquilo que as coisas às vezes, rápido como um relâmpago, podem, ou não, nos revelar; deve esboçar, talvez, um punctum (se lembrarmos do Barthes de Câmara clara). Criar esse “efeito-fotografia” – também através de uma decupagem que transforma o olhar de Isaac mesmo em uma câmera fotográfica através da persistência de planos subjetivos dele (lembrar de sua entrada na casa de Angélica, quando capta todos os detalhes da sala) – tem seus riscos: o espectador pode permanecer apenas na primeira camada, na “historinha”, e enxergar o filme como algo completamente banal.
Contudo, nosso caminho é preparado: do mesmo modo que Isaac, e apenas Isaac (que tem em seu oposto completo a simples, simpática e funcional dona de estalagem), muda de postura com relação ao mundo por causa da imersão em suas leituras, o roteiro de Oliveira, os poemas e citações que o fotógrafo declama (“ó, tempo, detêm-te!”, etc), a conversa à mesa do café (uma das melhores sequencias do filme e oliveiriana por excelência – notar o brilhante Luis Miguel Cintra, de cabelos brancos) sobre a fantástica natureza da matéria – referência clara a Epstein, como o nome da loja de fotografia do primeiro plano, “Foto Genia” – tudo isso como que nos “ensina” a olhar as outras imagens do filme de outro modo. Eis que o que fica em nossas cabeças forte e persistentemente não é a imagem de Angélica – um cadáver sarcasticamente sorridente e sem nenhuma aura – mas o sol batendo nos trabalhadores que levantam poeira ao cavar, o gato que olha entretido para o passarinho voando na gaiola, o plano geral da cidade que Isaac olha detidamente pela janela, o som misterioso do caminhão que passa toda manhã pela frente da estalagem (, pouco antes de morrer, ele apenas os escuta, sem vê-los). Nesse sentido, a sequencia mais incrível do filme – um travelling mostrando a sequencia de fotos (em que se alternam Angélica morta e os trabalhadores rurais) penduradas no varal de Isaac – pode resumi-lo: o que acontece quando se justapõem – quando se monta – uma linda jovem morta e alguns trabalhadores rurais cuja atividade está prestes a se extinguir, que significados eles, em todo seu agressivo mistério, podem permitir que surjam? Não coincidentemente, voltamos à pergunta que está presente na diegese e na mise-en-scéne de Tio Boonmee: que vida é possível se ter depois da morte?

André Antônio
(Texto original e imagens: 
http://www.filmologia.com.br/?page_id=2309)