sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Debatendo "Cidadão Kane"

O Legado de Kane
(fragmento)


Kane é apreendido em fragmentos independentes; vive através de flashbacks, isto é, no passado, e neste processo o tempo assume importância capital; o herói é rompido no tempo. Esta dialética repete-se em inúmeras obras do cinema moderno.

Igualmente "fechados" são os personagens e objetos; "Rosebud", o trenó, a fortuna de Kane são elementos desconhecidos para nós. Thompson, por exemplo, não o vemos claramente, não há informações psicológicas sobre a sua pessoa; é quase sempre uma presença apagada, vista de costas, uma sombra que perscruta o mundo, talvez a visão da História. Ou então do cinema.

É verdade que tal tratamento corresponde ao ideal expressionista de transformar os seres e objetos em símbolos. Mas eles não são somente símbolos, há algo mais. A certa altura, "Rosebud", por exemplo, deixa de ser somente o signo da melancolia de Kane para tornar-se, também, um elemento de conflito, isto é, para materializar-se. Os significados são inúmeros (símbolo da pureza, da infância perdida, do amor e implicações maternas, da regressão, da felicidade etc.) mas o que é, finalmente, Rosebud? Também Welles não intenta decifrá-lo.

O princípio da película – fornecer múltiplos pontos de vista sobre uma mesma incógnita – aproxima-se muito daquele tom de entrevista evidenciado em diversas fitas modernas, chegando mesmo a instituir uma técnica cinematográfica de reportagem. Neste sentido, lembro algumas posições de câmera diante do décor: um entrevistador diante do entrevistado; a filmagem desdramatizada, em cenas longas, de um grupo de pessoas conversando, rindo, discutindo geralmente ao mesmo tempo (Welles não filma ações mas discussões, agravadas posteriormente em A Marca da Maldade e O Processo). Cidadão Kane antecipa a "estética da conversa fiada", característica do cinema moderno, a que se refere o crítico J. C. Ismael.

Outro crítico, o francês Jean Domarchi, declarou, num artigo intitulado "América", que "para Welles ver o mundo significa falar desse mundo". Não é à toa que Kane renuncia à fortuna por um minúsculo matutino nova-iorquino ou que o fio condutor da história seja um jornalista: a fita parece, de fato, uma imensa reportagem sobre uma grande personalidade. E como na reportagem, detém-se em perguntar: quem é Kane? "Rosebud"? O amor, a civilização americana? O dinheiro? Naturalmente as respostas não são dadas: "os grandes cineastas primam pela enunciação de problemas e não por sua resolução", dizia na ocasião o próprio Welles.

Outro fator de modernidade é a proximidade com o teatro. O cineasta aproveitou a sua carreira anterior, que movimentara fortemente Broadway e arredores, oferecendo inéditas experiências sonoras ao cinema de então. Neste sentido, nada mais teatral, no cinema, do que o "estilo radionovela" adotado em algumas seqüências, talvez em homenagem à sua carreira de rádio.

Esquematicamente, pode-se definir esta fita como uma híbrida junção entre reportagem e teatro... a serviço do cinema.

 Rogério Sganzerla
(Suplemento Literário d'O Estado de S. Paulo, 28 de agosto de 1965)

Nenhum comentário:

Postar um comentário