quinta-feira, 14 de maio de 2015

Salomé


(Carmelo Bene, 1972)

Há um narcisismo idólatra neste filme - típico , aliás, do prestigitador de fogos-de artifícios maneiristas que é Carmelo Bene- que capta bem a essência da história de Salomé; a história da princesa judaica é mais um destes excertos pagãos inseridos na série de afrescos moralistas e judiciosos que é a Bíblia. É a cicatriz da promiscuidade do povo judeu com vizinhos persas, ritos pré-adamitas, remanescências de cultos anímicos; é a fresta através da qual a arte e a perversão penetram nesta comunidade avessa à imagem e seus encantos demoníacos.
A Salomé de Bene não é exatamente uma princesa sedutora, mas um ídolo de pedra, cuja impassibilidade de granito e trinado de pássaro sacrificado espreitam o desbunde da cena com um ar desconfiado de quem sabe que é a próxima vítima. A verdadeira princesa- fonte da miscigenação de cacofonias , corpos emplastrados de néon e picardia e lampejos Living Theatre - é o tetrarca Bene, cuja figura, estilhaçada pela fricção alucinatória dos closes, se assemelha a um novo Dionísio, devorado agora pelas bacantes deste implacável Deus onívoro, o Cinema, cuja capacidade digestiva permite a fruição de dois monstros em um único festim: o rito de imolação da liturgia teatral pelo carnaval da montagem; e o rito de expiação da nossa percepção pela sinestesia dos incansáveis floreios e meneios do filme.


Luiz Soares Jr.
Fonte:
http://cinemacomcana.blogspot.com.br

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