quarta-feira, 30 de abril de 2014

Cineclube da Cinemateca: Ciclo "Os Clássicos Americanos"

Cineclube da Cinemateca apresenta:
Ciclo "Os Clássicos Americanos"

O Cineclube da Cinemateca apresentará no mês de maio, "O Morro dos Ventos Uivantes" de William Wyler e "O Segredo da Porta Fechada" de Fritz Lang, promovendo um recorte que possibilite uma visão desse período paradigmático que nos ajuda a compreender tudo o que veio antes e depois na história do cinema.

03/05 - "O Morro dos Ventos Uivantes" de William Wyler
17/05 - "O Segredo da Porta Fechada" de Fritz Lang

Serviço:

Dias 03 e 17 de maio
15hs
na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

Cine Fap: "Um Jogo Brutal", de Jean-Claude Brisseau


Pesquisador volta a cuidar da filha que, vítima de um problema na coluna, não consegue movimentar as pernas. Enquanto a indócil garota se adapta à figura de uma governanta e do irmão desta, seu pai parte em uma matança com motivos misteriosos.

Serviço:
dia 05/05 (segunda)
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral) 
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP e HATARI! (Grupo de Estudos de Cinema)
Apoio: Coletivo Atalante

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Cine FAP: Jean-Claude Brisseau

Cine Fap apresenta: 
Mostra Cinema Francês Moderno



Jean-Claude Brisseau:
05/05 - "Um Jogo Brutal"
12/05 - "Celine"
19/05 - "Coisas Secretas"
26/05 - "A Garota de Lugar Nenhum"

Serviço:
Toda segunda
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral) 
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP
Produção: HATARI! - Grupo de Estudos de Cinema
Apoio: Coletivo Atalante

MELHOR QUEIMAR-SE DO QUE FENECER: JEAN EUSTACHE, O DÂNDI PROLETÁRIO


(fragmentos)

(...)

Ainda bloqueado pelo sistema econômico do cinema francês, Eustache passou muitos meses escrevendo A Mãe e a Puta. Estava obcecado por este projeto autobiográfico e sonhava constantemente com ele. Em 1971, sem fundos e sem outra coisa para fazer, ofereceu-se para montar meu filme Uma Aventura de Billy the Kid. Frente à moviola, sem interromper a montagem, recitava o diálogo que havia escrito em seu grande caderno na noite interior. O roteiro era uma série de conversações (um pouco como Rohmer), e estava testando-mo, tal como havia feito com outros, observando nossas reações aos paradoxos formulados por seu herói Alexandre, que seria vivido por Jean-Pierre Léaud. O que surgia era um tipo de anarquismo de direita, não muito distante ao das novelas de Céline. Não havia motivos ideológicos por trás de tudo isto, mas sim a necessidade de provocar própria de Eustache, e pelos fins de 68 é necessário dizer que o anarquismo de direita era bastante provocativo. Também era a vingança de Eustache contra um sistema cinematográfico que o havia excluído. O êxito de A Mãe e a Puta se apóia provavelmente na necessidade de Eustache e Léaud de empreender este improvável trabalho de logorréiaanti-conformista. Mas o filme também capturou a fala e particularmente as ações do período que seguiu 68 sem edulcorá-las. Poderia ser dito que a força do filme vem dessa mescla insolente de sentimentos de direita e esquerdismo sexual.

(...)

Convertido em uma celebridade, agora Eustache poderia retomar seu velho projeto de Mespetitesamoureuses. A história se passa em sua cidade natal e é vista através dos olhos de um garoto de 13 anos. Mais uma vez, há aparentemente uma mudança completa de direção: depois de passar dos documentários regionais à ficção parisiense mais autoral já criada, Eustache retorna à crônica provincial, centrada num garoto bastante comum. Quatro anos antes de rodar o filme, ele me disse que queria reconstruir a sua infância: cada seção de parede, cada árvore, cada poste de eletricidade. Segundo Eustache, era o único modo de transferir impressões infantis a um filme.

Mespetitesamoureuses é muito eficaz no modo em que traz à luz alguns rituais franceses: de certa forma, o próprio núcleo do trabalho de Eustache. Neste caso, trata-se dos ritos do cortejo adolescente: lugares tradicionais para encontros durante caminhadas, o repertório de improvisos românticos de garotos e garotas e as distâncias mantidas entre eles, os primeiros beijos. Entre os rituais franceses registrados fielmente por Eustache temos: o esquartejamento de um porco, a eleição da Rosière, festas dançantes dos subúrbios (Lesmauvaisesfréquentations), passeios por ruas de Narbonne (Le pèreNoël), inclusive conversações de café do sexto distrito parisiense (A Mãe e a Puta).

(...)

Voltando a Mespetitesamoureuses, sente-se uma voluntária sobriedade no comportamento dos atores e no seu estilo de atuação, como também a influência de Bresson. Mas Bresson é um mestre perigoso para imitadores. Há um princípio de dicção em seus filmes que, em absoluto, não dramatiza, mas que ao mesmo tempo possui a sua própria música, e tal coisa termina sendo inimitável. E o princípio tão bressoniano de cenas curtas, todas de duração similar, tornava-se monótono ao cabo de horas: quando nos acostumamos, já temos ideia de como acabará cada episódio. O ritmo particular do filme, entre outras coisas, explica o seu fracasso comercial. Rodado em cores, em 35 mm. (em oposição ao preto e branco em 16 mm.de A Mãe...), Mespetitesamoureuses custou muito mais que o seu longuíssimo e escandaloso predecessor, convocando apenas a metade de seu público na França. Mais uma vez Eustache se viu forçado a conformar-se com média-metragens e curtas.

(...)

Há outros pontos de referência para os filmes de Jean Eustache, incluindo John Cassavetes (A Mãe e a Puta não se encontra muito distante de Faces) e especialmente Maurice Pialat, a quem Eustache admirava. Há um número de semelhanças, tanto em termos de tema como de feitura, entre Mespetitesamoureuses e Infância Nua, filme de estreia de Pialat. Não é casual que Pialat tenha um pequeno papel no filme de Eustache.
Dois diretores excessivos, destemperados, apaixonados, que se distinguiram pela rejeição às grandes e complexas construções dramáticas e a exploração de situações, a favor de uma penetrante observação do comportamento humano e uma certa aversão à plasticidade.


Luc Moullet
(FilmComment nº 36, setembro 2000, pp. 38-43. Traduzido por Felipe Medeiros)

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Cine Fap: "Meus Pequenos Amores", de Jean Eustache


Jovem começa a perceber os contrastes das primeiras sensações de paixão com a inocência da infância... Ou melhor.... Não esquecendo que estamos perante uma visão necessariamente datada dos anos 70,s quanto ao posicionamento sexual e social da mulher, ainda menorizado e enquanto objeto, falamos de um jovem que tendo que se mudar com a mãe para o sul de França e obrigado a trabalhar deixando a escola, é nesse meio provinciano que vai aprendendo como lidar com as garotas... Passado um ano, volta à anterior cidade em visita à avó... e rever seus antigos amigos... aí, vão entender o quanto ele cresceu...

Serviço:
dia 28/04 (segunda)
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral) 
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP e HATARI! (Grupo de Estudos de Cinema)
Apoio: Coletivo Atalante

A BIFURCAÇÃO DO DESEJO

por Toni D’Angela



Oh, please let me come into the storm.

Leonard Cohen
A história que James Gray conta, com intensidade e grandeza, é uma anábase, um retiro, um retorno à casa - como outrora com Fuga para Odessa (1994), Caminho Sem Volta (2000) e Os Donos da Noite (2007).

Leonard (Joaquin Phoenix: suspenso entre A Vila e Johnny & June, magnífico) encontra-se perdido, sem rumo, extraviado, um veterano da mais terrível das derrotas: a mulher amada o abandonou. Desde o incipit se vê, ao mesmo tempo, à deriva e empenhado a emergir - das águas claras da baía (como a cidade) em que se jogou, afundando-se como se fosse um rejeitado qualquer, uma pedra, um gás. Desaparecendo, em queda livre. Errante: caminha muito, para entregar as peças lavadas e passadas pelo pai lavadeiro (e já estabelecido); Leonard medita, fantasia, experimenta mais uma vez o gelo da água onde tudo toma forma e se dissolve. Embarca e se molha todo - não há chuva na história nem nunca faz sol. No limiar, entre o fim e o princípio, o désir e o dispositivo de controle, o abismo que o traga durante o suicídio e o retorno à casa, finalmente sed(imen)tado, inserido, instalado, acomodado na poltrona, enquadrado e atado, entre pais e sogros, abraçando, com um olhar vago (ou talvez apenas inseguro?) a futura mulher, anônima e ainda agarrada pelo colarinho por antigas desilusões (no mais aludidas apenas pela sua aparência anêmica), como que antecipada pela imagem triste e melancólica de uma Isabella Rossellini (a mãe de Leonard) curvando-se por detrás da fenda da porta do quarto do filho, à espera de respostas, eventos, vibrações: coração de mãe - que substitui aquele, agora petrificado, de mulher e amante.

Mas, do fundo de uma poltrona dourada (as famílias de Leonard e da sua esposa prometida se preparam para fundir negócios), o andarilho realmente retrocederá para recomeçar? E qual início se abre ou vem destinado? Qual exílio? “O que distingue as pessoas umas das outras é a força de conseguir, ou de deixar que o destino consiga para nós” (cf. F. Pessoa, O Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Feltrinelli, Milão, 2008, p. 27).

Ao invés de inventar novamente seu destino, sua marcha, como os gregos derrotados na Ásia, o seu retorno, Leonard o suportou, deixando exposta a cicatriz. O Controle tritura, na figura do superego genitor onipresente e onívoro: os pais da primeira mulher decidiram pelo término do relacionamento; os pais das duas amantes, Sandra (Vinessa Shaw) e Michelle (Gwyneth Paltrow), ou conspiram ou berram, e finalmente mesmo o amante oficial de Michelle, o advogado de sucesso (Elias Koteas), para subordiná-lo, faz valer o seu papel de pai no único encontro com Leonard. Superego que exemplar e espectralmente encarna-se, aglutina-se e toma corpo na parede da sala de visitas da casa dos pais de Leonard: uma galeria de retratos de família que, como um vórtice, apanha e suga o jovem desesperado. Uma banalidade de base, uma trama que sufoca tudo sob o viaduto de uma cidade anônima (Brighton Beach, Coney Island: já o cenário de Fuga para Odessa, a estréia de Gray realizada em 1994, e Réquiem Para um Sonho de Aronofsky), periférica, marginal, que não pulsa nem fala. Leonard está preso em uma casa na periferia de alguma coisa...

No entanto, os espaços, na história de Gray, desempenham uma função crucial da narrativa, modelando o sentido do texto: da intersecção de forças (personagens) que, por sua vez, torna-se personagem. Um espaço-texto arraigado e implementado nos componentes do décor no qual transcorre a duração, seja aquela interior de Leonard ou aquela interna ao filme. A sala, o terraço, o pátio são os horizontes de sentido em que Gray faz a sua tessitura, construindoAmantes como uma topologia. Na sua superação, Leonard conhece primeiro Sandra e depois Michelle, duas amantes, uma morena e a outra loira, uma confortante e a outra atormentada, uma vizinha e a outra distante. No seu vai-e-vem entre uma e outra, Leonard experimenta as estações, os locais que uma e outra freqüentam e onde se manifestam, e, de vez em quando, aos quais lhe chamam. Sandra é a mediatriz. Polida e simples, cabelos que caem sobre os ombros sem se esparramar, Sandra está sempre em interiores: na casa dos pais de Leonard ou no seu quarto, em um bar na sala em que se comemora o aniversário de seu irmão. Sandra está sempre abrigada, em situações protetoras, domésticas, familiares: ceias de família ou festas com parentes e amigos, sempre, obviamente, da família. Anjo da lareira? Apesar de o fogo parecer já ter se apagado, em uma dialética sem síntese e fantasmática, ela alimenta, no entanto, o desejo. Leonard, com ela, sente-se em casa e, juntos, deslizam até o fundo da poltrona, acomoda-se, ao lado de uma mulher que sabe esperar.

Michelle é lunática, frágil, objeto de voyeurismo, movendo-se entre os extremos e o estupor: droga, discoteca, aborto. Com ela, Leonard caminha na rua, é exposto às intempéries, à chuva (quando na porta do hospital) e especialmente o vento, em particular na cena de amor sobre um terraço hitchcockiano, onde a intensidade se exprime graças ao som, ao vento que sopra, assobia, chia, bate, grita - e já gela. Com ela Leonard está, ao mesmo tempo, à espera e fora de si, longe de casa, pronto para ir para San Francisco e desrespeitando, assim, a maquinação dos pais. Mesmo quando Leonard e Michelle se encontram nos seus quartos e falam um com o outro à distância, esta imediatamente os consome: impulsionados pelos sonhos ou pela desenvoltura, lançando-se à janela, suspensos sobre o pátio do desejo que dá para o início das estrelas. Com ela Leonard experimenta somente os altos e os baixos. Com Sandra faz amor debaixo das cobertas, na cama do seu quarto, em plano médio; com Michelle no terraço, ao passo que embaixo - outro extremo - no pátio desolado e noturno, a mesma Michelle (mas não igual: diferente e capturada em outra fascinação?) o abandona.

Duas mulheres, duas amantes, duas espacialidades, e, para além das caracterizações psicológicas (incluindo a minha), duas imagens mentais de Leonard, duas formas de desejo que, talvez, referem-se à outra mulher, à outra cena, que são o movimento feito de uma foto que queima, a foto-retrato da mulher que o deixou a primeira vez, ou as fotos sepultadas na caixa (como no baú de A Vila); que, no fora de campo da memória, refere-se a outros cancelamentos e perdas:Nostalgia de Hollis Frampton.

O ambiente dessas duas mulheres é duplo, como Leonard, divergido em uma bipolaridade, um agostiniano quero/não quero: joga-se na água para morrer mas depois submerge; aproxima-se, à noite, da água mas depois (estupefato ou intimidado?) recolhe sobre a areia o anel que comprou para Michelle e o dá de presente para Sandra. Este vai-e-vem entre fantasia e sentimento não poupa nem mesmo Michelle e a mais convicta Sandra que, na realidade, apaixonou-se por Leonard antes mesmo de vê-lo, conhecendo sua história (a tentativa de suicídio) apaixonou-se por uma imagem, uma fantasia. Como é assinalado no início do filme, de forma um tanto quanto abstrata: “nós amamos os nossos clientes”, diz o slogan da lavanderia. Nós amamos os nossos fantasmas...

A anábase, ao que parece, leva Leonard da intensidade (o mergulho na baía) à identidade: emoldurado no retrato, no interior de um grupo familiar[1]. Mas, talvez, a autenticidade, na história completamente reconfortante ou sistemática de Gray, esteja em mostrar o retorno de Leonard como um Unheimlich (inquietante) que nada mais é, essencialmente, que o Heimat (pátria, moradia) do homem. É claro que a jornada de Leonard não é um afastamento de suas origens e, ao mesmo tempo, um ressurgimento, um retorno a casa, após o momento hegeliano de exilamento, para, enfim, conciliar-se (o filme me parece estar mais para os lados de Kierkegaard). Não é essa a história do seu subsolo. Leonard, sintomaticamente, é destinado a ser um forasteiro na sua própria pátria, estranho a si mesmo, ao seu ambiente, à sua casa? Gozar do seu desejo, mas na contradição, no estado das coisas, que concatena as vias de fuga (a intensidade) com as conjugações (o matrimônio e o retorno à família).

James Gray não conclui nem condena. Seu filme não é uma objetivação da subjetividade de Leonard, não faz dela uma coisa, um objeto de estudo, não é a lógica ou o juiz: não é o pai agente do capital sem escrúpulos (James Caan emCaminho Sem Volta) ou policial (Robert Duvall em Os Donos da Noite) ou, ainda, acomodado na vida legisladora, imprescindível, monótona. A existência escapa à lógica, que, no final do filme, como um baluarte que o protege da vida, decide no lugar do personagem, e parece impor-se... E com a mãe, encapsulada na memória de amores que não teve, nós também sentimos, até as lágrimas, ternura.

Deram um desejo (uma luva, uma distância, uma memória), um dom para Leonard; e ele desejava todavia abraçá-lo; mas, finalmente, Leonard acumulou pó no quarto e, encerrado entre as prateleiras, endossou o mundo que, incumbido, observava-o pela parede da sala; sem enegrecimento (afogando-se), mas congelando, e depois a bela tempestade de neve; talvez, sem poder mais se aquecer, se não, novamente, na heterogênese do desejo e na bipolaridade constitutiva da história: duas mulheres, dois presentes, dois abraços, duas tentativas de suicídio, duas voltas para casa. E assim essa história, aliás, deveria, a partir daqui, recomeçar ou bifurcar-se.
Penso às vezes que nunca sairei da Rua dos Douradores.

Fernando Pessoa

Nota:                                                             

[1] Referência ao título original do filme de Luchino Visconti, Violência e Paixão (Gruppo di famiglia in un interno, 1974) [n.d.t.].

(Traduzido por Bruno Andrade) 
Texto original: http://www.focorevistadecinema.com.br/FOCO3/amantes3.htm

Cineclube da Cinemateca: "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha

Neste sábado, dia 26, o Cineclube da Cinemateca apresenta "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, encerrando o ciclo "O western segundo Glauber Rocha".

Cineclube da Cinemateca apresenta:
"O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro", de Glauber Rocha


Numa cidadezinha chamada Jardim das Piranhas aparece um cangaceiro que se apresenta como a reencarnação de Lampião. Seu nome é Coirana. Anos depois de ter matado Corisco, Antônio das Mortes (personagem de Deus e o Diabo na Terra do Sol) vai à cidade para ver o cangaceiro. É o encontro dos mitos, o início do duelo entre o dragão da maldade contra o santo guerreiro. Outros personagens vão povoar o mundo de Antônio das Mortes. Entre eles, um professor desiludido e sem esperanças; um coronel com delírios de grandeza, um delegado com ambições políticas; e uma linda mulher, Laura, vivendo uma trágica solidão.


“Com relação a O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, eu quis fazer um western bastante objetivo, [...] Escolhi quatro ou cinco westerns que vi e revi para chegar a algumas conclusões. Eu vi Rio Vermelho, El Dorado e Rio Bravo. E disse a mim mesmo: é preciso retomar este espírito, estes gestos feitos em completa intimidade, como nos filmes de Hawks.”

Glauber Rocha, entrevistado pelos Cahiers du Cinéma.
Serviço:
dia 26/04 (sábado)

às 15h

na Cinemateca de Curitiba

(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)

(41) 3321 - 3252

ENTRADA FRANCA


Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

terça-feira, 22 de abril de 2014

Cineclube Sesi: "Amantes", de James Gray

Nesta quinta-feira, dia 24, o Cineclube Sesi apresenta "Amantes", encerrando o ciclo James Gray. Em maio o tema abordado será o Cinema Maneirista.
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi apresenta:  "Amantes", de James Gray

Leonard Kraditor (Joaquin Phoenix) já tentou o suicídio diversas vezes. Ele não se recuperou do fim do noivado há dois anos, devido a uma doença, que ele e sua noiva possuíam, que faria com que seus filhos falecessem antes de completar um ano de vida. Seus pais, Reuben (Moni Moshonov) e Ruth (Isabella Rossellini), vivem preocupados com o filho e tentam fazer com que namore Sandra Cohen (Vinessa Shaw), filha de um casal amigo. Os dois se conhecem em um jantar na casa dos Kraditor, mantendo contato a partir de então. Dias depois Leonard conhece Michelle Rausch (Gwyneth Paltrow), sua vizinha, que está refugiada no corredor para evitar o mau humor de seu pai. Leonard oferece estadia em sua casa até que ele se acalme e logo demonstra interesse nela. Entretanto Michelle namora um homem casado, que sempre lhe promete que deixará a família mas nunca cumpre, e ainda tem problemas com drogas. Esta situação faz com que Leonard tenha que se decidir entre a paixão e o risco de viver com Michelle e o carinho e a tranquilidade oferecidos por Sandra.

Serviço:
dia 24/04 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA
 

Realização: Sesi 
   
   (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)

domingo, 20 de abril de 2014

Há cinema para além dos blockbusters

Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
Marcelo Andrade/Gazeta do Povo  / Os organizadores Letícia Weber e Miguel Haoni: cinema como combustível para a vidaOs organizadores Letícia Weber e Miguel Haoni: cinema como combustível para a vida
PROJETO

Há cinema para além dos blockbusters

Promovidos pelo Coletivo Atalante, cineclubes de Curitiba cativam público ao exibir filmes raros e proporcionar debates construtivos
Publicado em 20/04/2014 | 
“A entrada é franca e a con­­­­­­­versa também”, garante Miguel Haoni, sobre os cineclubes promovidos pelo Coletivo Atalante. Desde fevereiro de 2012, o grupo de dez profissionais da arte proporciona atividades ligadas à música (a divertida festa Som de Preto e oficinas de sound­­painting), à literatura (o ousado Poiésis – Caminhadas Literárias) e ao cinema, com sessões de filmes que não se encontram por aí, mas que também vão bem com um pa­­­­cote de pipocas.
Novamente na moda e em expansão, os cineclubes de Curitiba são alternativa para quem quer fugir, ao menos um pouco, dos blockbusters que dominam os cinemas de shoppings. “E também daquele cinema europeu brioche que é tão inofensivo e tão perigoso quanto as pipocas hollywoodianas”, atesta Haoni.
De Gray a Glauber
Na última quinta-feira, o Cineclube Sesi exibiu Os Donos da Noite, de James Gray. No Cineclube da Fap, o último filme comentado foi Cap Nord, de Sandrini Rinaldi. Saiba mais sobre os cineclubes:
Cine Fap
Auditório Antônio Melilo (R. dos Funcionários, 1.357, Cabral). Toda segunda-feira, às 19 horas. Em maio, haverá o ciclo Jean-Claude Brisseau.
Cineclube Sesi
Sala Multiartes do Sistema Fiep (Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico). Toda quinta-feira, às 19h30. Em maio, haverá o ciclo Cinema Maneirista.
Cineclube da Cinemateca
Cinemateca de Curitiba (R. Pres. Carlos Cavalcanti, 1.174, São Francisco). Aos sábados, a cada 15 dias (próxima sessão, dia 26). Em exibição: Mostra O Western Segundo Glauber Rocha.
Mais informações no blogcoletivoatalante.blogspot.com.br.

Divulgação
Divulgação / Sala do Sesi lotada em dia noite de cineclubeAmpliar imagem
Sala do Sesi lotada em dia noite de cineclube
Filmes raros, definitivos e clássicos eternos estão no pacote do projeto, que acontece em três espaços da cidade: na Faculdade de Artes do Paraná (Fap), no Centro Cultural da Fiep e, agora, na Cinemateca de Curitiba.
Foi o coletivo o responsável, por exemplo, por exibir Um Dia na Vida, filme inacabado de Eduardo Coutinho, morto no início do ano. “As raridades que rolam no Cine Fap chegam até nós quase sempre via a maravilhosa internet”, diz.
Debates
Os cineclubes são democráticos. Alunos de cinema dividem, numa boa, espaço com cinéfilos de ocasião. “É para a comunidade, mas as presenças mais constantes são dos universitários e dos idosos. Eles compõem um público essencial para o dia a dia da cena cultural em qualquer lugar”, atesta Haoni.
Após a exibição dos filmes, dá-lhe saliva. Debates, às vezes acalorados, acabam por complementar a atividade. Surge um ponto de vista inovador aqui, uma opinião polêmica ali. E é essa a maior graça de um cineclube, afinal. “O que mais me chama atenção é a disposição dos participantes em usar o espaço para estudar cinema e não sociologia, história, psicologia, política e outros ‘temas nobres’. Isso é uma coisa raríssima de se ver”, afirma o cinéfilo. Recentemente, houve um debate acirradíssimo sobre o filme Uma Aventura de Billy the Kid, de Luc Moullet. “Metade da plateia detestou o filme. Foi lindo.”
Atualmente, o Cineclube Fap exibe uma mostra de cinema francês moderno. A adesão foi “estrondosa”, e às vezes há briga por uma das 70 cadeiras. “O cenário de Curitiba é meio difícil, mas estamos conseguindo conquistar os espaços”, vangloria-se Haoni, que “não é formado em nada” e também coordena os minicursos de História do Cinema no Sesi.
Público aprova iniciativa e torce por debates
O estudante de cinema Cauby Monteiro, de 24 anos, lembra bem os momentos posteriores à exibição de Sob o Sol de Satã (1984), de Maurice Pialat. “O filme foi muito bem analisado e várias questões foram discutidas”, diz o jovem natural de Belém, cidade com cinco cineclubes. No longa, um padre (Gerárd Depardieu) estabelece uma conflituosa relação com a jovem Mouchette (Sandrine Bonnaire) após um crime balançar o pequeno vilarejo onde vivem.
Cauby também é programador de algumas sessões. É ele quem escolhe os filmes a serem exibidos, tarefa para quem entende do riscado. “Sempre gostei. Fui crescendo e expandindo meu gosto, percebendo outras leituras do cinema. Hoje, assisto a um filme por dia”, afirma Monteiro.
A ideia principal é dar luz a filmes não tão conhecidos ou de difícil acesso. Apesar de um dos cineclubes ficar numa universidade, Monteiro observa que o público é variado. “Vem muita gente de fora, isso é ótimo”, analisa.
E o cinema tradicional, onde fica nisso tudo? “É ‘passável’. Vou mais pelo ritual. A programação, tirando raras exceções, como alguns filmes do Festival Varilux [que exibiu 16 filmes franceses entre 9 e 16 de abril em Curitiba], por exemplo, não me interessa.”
Quem não perde uma sessão dos cineclubes é o estudante Erick Moro. O jovem se viu resgatando filmografias inteiras de diretores que admira. “Isso é fruto do formato escolhido para as exibições, pois cada ciclo mensal – escolhido previamente pelo próprio público que presencia as sessões – é uma minimostra de cinema, mas com uma curadoria que não é ‘mini’”, garante.
Os debates acalorados, na visão de Moro, só ajudam a consolidar o projeto. “Defeitos ou elementos que desagradaram a alguém na plateia são por vezes extensamente debatidos. E isso é fundamental para fomentar o treino e a educação do olhar sobre o cinema, bem como sobre as demais artes, consequentemente.”
Matéria original: http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=1463182&tit=Ha-cinema-para-alem-dos-blockbusters

sábado, 19 de abril de 2014

Cinema Pela Verdade 3ª Edição


Acontece em Curitiba no mês de maio a 3ª edição do Fetival Cinema Pela Verdade, uma mostra de filmes sobre o período da Ditadura Civil-Militar no Brasil e suas consequências. Em 2014, o projeto acontece simultaneamente em universidades das 27 unidades da federação entre abril e maio. Durante o evento, serão exibidos filmes que abordem este período da história do Brasil. Será promovido ainda um debate com acadêmicos, pesquisadores, ex-presos políticos, pessoas de movimentos sociais e culturais de nosso estado, além de participações especiais dos próprios diretores ou equipe de produção dos filmes exibidos. Para repensar e revisitar este momento histórico é que o projeto Cinema pela Verdade aposta na utilização de material audiovisual como um excelente instrumento de resgate da memória e, a partir dos debates, criar um espaço para a troca de conhecimento entre debatedores e estudantes.


A Faculdade de Artes do Paraná (FAP/UNESPAR) será palco das primeiras sessões de filmes da Mostra Cinema pela Verdade, em Curitiba. Nos dias 08 e 09 de maio, serão exibidos respectivamente os documentários Camponeses do Araguaia – A Guerrilha Vista por Dentro, de Vandré Fernandes, Ainda Existem Perseguidos Políticos, produzido de forma coletiva pela Ong Acesso e Repare Bem, de Maria de Medeiros. E nos dias 14 e 15 de maio teremos sessões na Cinemateca de Curitiba reprisando os dois primeiros títulos apresentados na FAP.


Os filmes apresentados este ano serão:


Repare Bem, de Maria de Medeiros
Documentário, 10 anos, 95 min., França, Itália, Brasil, 2012
Sinopse: O jovem guerrilheiro Eduardo Leite “Bacuri” morre em 1970 nas mãos da ditadura militar brasileira, depois de 109 dias de tortura. Sua companheira, Denise Crispim, perseguida e presa durante a sua gravidez, consegue fugir para o Chile depois do nascimento de Eduarda. Lá, encontra seus pais exilados, os quais dedicaram toda a sua vida à luta pela liberdade. A violência da repressão volta a atingir a família com o golpe de Augusto Pinochet, obrigando pais e filhos a se dispersar pelo mundo.


Camponeses do Araguaia, a Guerrilha Vista por Dentro, de Vandré Fernandes
Documentário, 14 anos, 73 minutos, Brasil, 2010
Sinopse: Camponeses falam da amizade com os “paulistas”, como chamavam os militantes do PC do B que lutaram na Guerrilha do Araguaia durante a ditadura militar, e revelam as atrocidades cometidas pelo exército brasileiro na região entre 1972 e 1974.


Ainda Existem Perseguidos Políticos, produzido pela ONG Acesso
Documentário, 10 anos, 54 minutos, Brasil

Sinopse: O filme tem por objetivo fomentar o debate sobre a ausência de uma efetiva transição democrática no Brasil, pós-Ditadura Civil-Militar implantada no País a partir de 1964. Identifica semelhanças no agir do Estado no passado e atualmente, demonstrando que a cultura do autoritarismo permanece arraigada em algumas instituições estatais brasileiras. Apresenta também imagens do projeto que levou este debate para os mais variados públicos (quilombolas, universitário, LGBTT, assentados do MST, comunidades periféricas, etc) desenvolvido pela Acesso - Cidadania e Direitos Humanos em parceria com a Comissão de Anistia. 
 
Serviço:


DATA: 08/05/2014
HORA: 16:00 
LOCAL: FAP/UNESPAR - Auditório Antônio Melillo (Rua dos Funcionários, 1357 - Cabral)
FILME: Camponeses do Araguaia, a Guerrilha Vista por Dentro, de Vandré Fernandes


DATA: 09/05/2014
HORA: 14:00 
LOCAL: FAP/UNESPAR - Auditório Antônio Melillo (Rua dos Funcionários, 1357 - Cabral)
FILME: Ainda Existem Perseguidos Políticos, produzido pela ONG Acesso


DATA: 09/05/2014
HORA: 19:00
LOCAL: FAP/UNESPAR - Auditório Antônio Melillo (Rua dos Funcionários, 1357 - Cabral)
FILME: Repare Bem, de Maria de Medeiros


DATA: 14/05/14
HORA: 20h
LOCAL: Cinemateca de Curitiba - Endereço Rua Carlos Cavalcanti, 1174. São Francisco.
FILME: Camponeses do Araguaia, a Guerrilha Vista por Dentro, de Vandré Fernandes


DATA: 15/05/14
HORA: 20h
LOCAL: Cinemateca de Curitiba - Endereço Rua Carlos Cavalcanti, 1174. São Francisco.
FILME: Ainda Existem Perseguidos Políticos, produzido pela ONG Acesso


Todas as sessões serão seguidas de debate.


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Joel Batista
Agente Mobilizador Cinema Pela Verdade
41 9213 4582

Apoio: Coletivo Atalante

quinta-feira, 17 de abril de 2014

OS DONOS DA NOITE


James Gray, We Own the Night, EUA, 2007

Assim como o recente Zodíaco, de David Fincher, Os Donos da Noite nos coloca diante de uma interrogação sobre o estilo, o ponto de vista, a forma, talvez sobre um lugar enigmático da mise en scène na Hollywood atual. Ambos parecem filmes disfuncionais se comparados ao grosso do que é feito hoje em termos de ação, thriller policial e gêneros similares. Esse ar disfuncional, contudo, rapidamente se revela um traçado preciso, uma forma deessencialismo. Os Donos da Noite tem um bom roteiro, uma linha narrativa coerente, um drama forte, mas o grande investimento da obra está na abordagem de um olhar sobre o conjunto material e imaterial do filme, e também sobre seus detalhes materiais e imateriais. Está na mise en scène. O aguardado novo filme de James Grayé uma usina de detalhes, mas não um campo de batalha para puras questões formais. O enredo do filme se desenvolve inteiramente, e muitíssimo bem, num terreno formal ultra pensado e concebido, quase teórico, porém sem abdicar de ser emotivo e visceral. 

Em Zodíaco e Os Donos da Noite, uma certa linha da imagem foi ultrapassada ou mantida à distância. Estamos muito abaixo ou muito acima de uma operação de esteta. Ou na fronteira, difícil estabelecer. Percebemos que o essencial do filme se acha na construção, mas esta se esquiva, não fica em realce. É um tipo ambíguo de invisibilidade da direção, onde a mise en scène é tudo e simultaneamente nada. Perto de qualquer outro filme deFincher (que se notabilizou pelos excessos), Zodíaco chega a parecer um cine-jornal. E, no entanto, não se pode dizer que o diretor abriu mão do estilo, muito pelo contrário. Reconhecemos que há um filtro estético e que ele está longe de ser insignificante, mas não sabemos ao certo em que lugar ele nos instala. Frontalidade, secura? Ou maneirismo ainda maior que trabalha por vias alternativas? Os Donos da Noite lança questões semelhantes: James Gray está avançado demais no código, esgarçando o cinema de gênero como só uma série B saberia fazer, ou recuando estrategicamente, concentrando-se nos interstícios, focando as nuances, o drama de fundo do cinema policial e de máfia. Dá para se ater a essa segunda hipótese, das nuances e dos interstícios, por boa parte do filme... Mas o que dizer então quando explodem as cenas de confronto em tours de forcemagnificamente orquestrados? 

O cinema americano sempre teve essa reserva de penumbra para os procedimentos estéticos que não se colam nem a modismos nem à reprodução fiel de um sistema formal constituído. Os Donos da Noite traz a consciência de pertencer a uma história dos estilos e de integrar um imaginário que atravessa décadas. É um filme policial estilo anos 70 que se passa nos anos 80 e mostra a guerra entre a polícia e a máfia como nos anos 30. E com estrutura dramática shakespeariana. Partindo disso, vários curtos-circuitos são possíveis. Gray não adere ao vintage, e sua diegese se constrói sem usar os signos de maneiracool e sem recorrer às referências fáceis que geralmente são mobilizadas para estabelecer o clima da época em que a história se passa. Os Donos da Noite é ambientado noBrooklyn em 1988. Bobby (Joaquin Phoenix) é o gerente da mega boate El Caribe, cujos donos são mafiosos russos. Devido ao sucesso do estabelecimento, Bobby é convidado a administrar uma nova filial, talvez emManhattan. Ele é o futuro dono da noite nova-iorquina, como fala entusiasmado para seu amigo Jumbo. Mas seu universo entra em colapso quando a mesma máfia russa dona do El Caribe declara guerra à polícia da qual fazem parte seu pai e seu irmão, interpretados por Robert Duvall e Mark Wahlberg. Como em The Yards, Gray demonstra uma grande sabedoria na escolha do elenco, reunindo atores novos e antigos. 

O início de Os Donos da Noite já é extraordinário. Primeiro uma sucessão de fotos documentais em preto-e-branco, mostrando batidas policiais, locais com drogas, cenas de crimes etc. Depois o filme vai para o El Caribe. Lá, Bobbyencontra Amada (Eva Mendes) se masturbando num sofá, comHeart of Glass” da Blondie tocando ao fundo. Eles estão prestes a transar, mas Jumbo bate na porta e interrompe o namoro. Bobby precisa ir no andar térreo resolver uma confusão provocada por duas mulheres dançando semi-nuas em cima do balcão do bar e alguns bêbados brigando. Gray faz um contraste entre essa situação caótica e a confraternização bem comportada dos policiais, no galpão ao lado de uma igreja (cuja arquitetura remete ao El Caribe, num espelhamento em certa medida até clichê entre o templo religioso e a boate moderna). A conversão de Bobby a policial já está indicada nessa passagem de espaços na seqüência inicial do filme. Trata-se menos de uma escolha moral do que de uma transmissão familiar inelutável – o assustador desse processo é que ele envolve a perda de uma "liberdade" que o irmão no fundo invejava em Bobby. Se por um lado há uma influência setentista forte, por outro não estamos no terreno da corrupção policial como em Serpico (SidneyLumet) ou Operação França (William Friedkin). O filme se concentra menos na corporação do que na família. Alguém pode lembrar, e com razão, da voga de ficções familiares desta década, de Sopranos ao Cronenberg recente, mas o registro aqui é totalmente outro.

A ação tem um valor todo próprio em Os Donos da Noite. Para um filme que não é o que se pode chamar de “agitado”, e que na verdade deve provocar o tédio de muita gente, é no mínimo curioso constatar que ele possui: 1) a melhor cena de perseguição de carro dos últimos anos (podem falar da – realmente delirante – seqüência final de À Prova de Morte do Tarantino à vontade, porque garanto que Gray foi além), 2) uma cena de emboscada extremamente tensa e imersiva e 3) um clímax arrebatador, daqueles de ficar impregnado na memória, pedindo uma revisão do filme. Na perseguição, quase todos os planos são feitos de dentro do carro de Bobby. Chove torrencialmente, os mafiosos cercam seu carro, mandam tiros, o pai dele é morto logo à frente, o carro pega uma contramão e quase bate em dezenas de outros: acontece de tudo e a seqüência é filmada entre a confusão completa (realmente estamos tão atordoados com a perseguição quanto o personagem) e a suprema mestria na construção dos pontos de vista e no uso do som. O ponto de vista, aliás, é uma questão estética crucial no filme. Quando Bobby vai ao encontro dos mafiosos com uma escuta escondida no isqueiro, Gray vai progressivamente mergulhando na construção subjetiva, a cena se pautando cada vez mais nos sons e nas visões deBobby. No encontro anterior, com o capanga de Vadim(vilão dos vilões), sabíamos de antemão que Bobby se entregaria por um detalhe: ele acende seus cigarros com fósforo, mas a escuta está num isqueiro. Uma vez descoberto por Vadim, Bobby solta a senha mágica, já combinada anteriormente, e a polícia chega. No meio do tiroteio, uma bala zune no ouvido de Bobby e o mundo fica abafado e irreal. Uma troca de tiros monumental, uma verdadeira guerra, em questão de segundos se torna “leve como uma pena”. No clímax, depois que Bobby entra à caça de Vadim no meio do mato, ao qual foi atiçado fogo, ocorre uma nova cena de total imersão, reforçada pela fumaça que toma conta da imagem e, novamente, pelo peculiar uso do som. A cena de Bobby retornando do meio da fumaça tem uma dimensão espiritual que não estamos acostumados a ver no cinema de gênero contemporâneo.

Momentos de êxtase, portanto, não faltam. Acontece que James Gray rejeita operações confortáveis na sua mise enscène – nem o conforto do bom artesão lhe interessa. Suas exigências, assim, tornam-se ainda maiores; seus deleites visuais, mais recônditos. À exceção de um ou outro slow motion (há um de Eva Mendes fumando que é sensacional), Gray rejeita também as facilidades do icônico, instalando-se num universo de enquadramentos regidos por dinâmicas mais complexas, como a claustrofobia de alguns planos. A suprema arte de Gray se deixa ver nos corpos dos atores, nos ambientes, nos gestos de aproximação ou distanciamento entre os personagens (como em toda a impressionante relação dePhoenix com Wahlberg). E nas sombras inquietantes, vez ou outra vampirescas, desse filme noturno e fascinante pelo qual James Gray nos fez aguardar durante não menos que seis anos. Tudo bem: deve ser o tempo de amadurecimento do seu talento e da sua exigência.

Luiz Carlos Oliveira Jr.

(Texto original: http://www.contracampo.com.br/89/critdonosdanoite.htm)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Mini-curso: A arte da mise-en-scène

Dando prosseguimento ao que foi iniciado com as Oficinas de Formação de 2013 (cineclube, cinema na escola e crítica), o Sesi oferecerá em 2014 mini-cursos mensais sobre diversos capítulos da teoria e da história do cinema. 
Ministrados pelo cineclubista Miguel Haoni, do Coletivo Atalante, os mini-cursos terão carga horária de 8 horas, inscrições gratuitas e vagas limitadas.

A técnica da encenação , apesar de quase invisível, foi e continua sendo um dos canais mais expressivos entre o autor e o espectador. A disposição dos objetos e corpos no espaço da cena, seu movimento, suas relações entre si e com a câmera, constitui em diversos períodos de sua trajetória, a essência cinematográfica. O Mini-curso de História do Cinema de abril pretende abordar esta dimensão da arte, através da revisitação do pensamento de alguns de seus principais teóricos.

Unidades:
1 - O estilo
2 - O belo e o verdadeiro
3 - Mise en scène moderna 
4 - O essencial e o supérfluo

Referências:
1 - BORDWELL, David. Figuras Traçadas na Luz.  Campinas, SP: Papirus, 2009
2 - OLIVEIRA JR, Luiz Carlos. O cinema de fluxo e a mise en scène. São Paulo, 2010
3 - "A Eternidade e Um Dia". Theo Angelopoulos. 1998. GRE. cor. 132 min.
4 - MOURLET, Michel. "Sobre uma arte ignorada". Cahiers du Cinema n. 98, agosto de 1959

Serviço: 
dias 26 e 27 de abril (sábado e domingo)
das 14 às 18 horas
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)   

Inscrições gratuitas pelo telefone: 3271-9560
VAGAS LIMITADAS

Realização: Sesi 
  
     (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)